Gilda, a protagonista deste solo de desconcertos, inicia a história na seguinte situação: mora com a mãe - com quem mantém um ininterrupto rosário de atritos - e um tio, ambos excêntrica e algo tacanhamente insanos; está tendo um caso com José Júlio, casado, que vive anunciando a separação, mas não desata; tem um chefe tarado que a persegue; insatisfações degeralizadas, entre as quais mais aguçada, naturalmente, é nunca ter tido um orgasmo. No entanto, Lívia Garcia-Roza faz de sua personagem, Gilda, uma lutadora, fera uterina que desconhece o próprio poder. É o que lhe permite trançar por seus problemas com uma ironia que, em primeiro lugar, não poupa a si mesma, e não abre brecha para autopiedade. Ela é uma sobrevivente romântica num mundo povoado por príncipes que ao primeiro beijo viram sapos, e que não prima,também pela sensatez, ainda mais em matéria amorosa. Trata-se então, este solo, de uma balada sobre a solidão feminina. Mas também sobre a intimidade feminina. Sobre segredos compartilhados. Sobre uma mulher que tem em sua essência não desistir do sonho de humanizar a loucura da vida.

