Tendo me afastado do Partido Comunista em 1957, chocado com as revelações contidas no Relatório Krushov, e concluído o curso de filosofia (basicamente marxismo) na Universidade Lomonosov, em Moscou, ao tempo em que pertencia àquela agremiação política, tive naturalmente que me defrontar com as questões que aquela experiência suscitava. Demorei muitos anos até deslindá-las de forma adequada. De modo que, quando publiquei, em 1981, A questão do socialismo hoje, algumas delas ainda se encontravam superpostas, o que suponho haver esclarecido desde então. Constitui um problema teórico isolado determinar se o marxismo tem alguma significação filosófica. O prestígio do marxismo adveio do sucesso político e não o contrário, embora seus partidários tenham procurado obscurecer esse fato, enfatizando a circunstância de estar associado ao idealismo alemão, sem dúvida alguma a expressão filosófica mais importante do Ocidente. Na verdade, entretanto, Marx sofreu outras influências que provavelmente terão sido ainda mais marcantes, como a do cientificismo, isto é, a crença na possibilidade de ciência social sem atenção aos valores, o que é uma evidência reconhecida. Mas também uma outra influência obscurecida: a exaltação do Estado nos moldes prussianos, que nada tem a ver com a idealização moral daquela estrutura – inexistente na Alemanha e que se desejava constituir, no século XIX, como elemento imprescindível à unificação. O prestígio do marxismo resultou do fato de que entroncava com as tradições cientificistas e patrimonialistas e não por se achar associado ao idealismo alemão. Precisamente isto explica que se haja radicado na Rússia, Estado Patrimonial secular conforme o demonstrou Karl Wittfogel (1896-1988) e, no Ocidente, apenas em países com acentuados resquícios patrimonialistas, a exemplo da França e da Itália. É certo que essa constatação não elimina a necessidade de avaliar-se a sua significação filosófica. Com base nessa conclusão, dissociei os dois temas que se achavam superpostos no livro de 1981. Desde então retomei o projeto de livre-docência que havia elaborado na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, ainda na década de sessenta, e trabalho no texto que denominei de Avaliação crítica do marxismo e descendência, no qual espero dar conta do aspecto teórico do problema. Restava estudar a experiência do socialismo ocidental a fim de dispor de um parâmetro que me permitisse dissociá-lo do comunismo, isto é, da experiência soviética. É de percepção intuitiva que o socialismo é uma aspiração moral que decorre do cristianismo e do próprio judaísmo. Sintetizando de forma magistral os Dez Mandamentos, Kant ensinou-nos que o homem é um fim em si mesmo e não pode ser usado como meio. Trata-se, contudo, de um ideal moral a ser perseguido. Tentar impô-lo constitui uma violação do espírito do cristianismo equivalente à que o Papado efetivou ao conceber e instaurar a Inquisição. Prossegui portanto nos meus estudos da experiência socialista ocidental – que reúno neste livro – mas também me convenci de que num país de tradição patrimonialista e cientificista como o Brasil – razão pela qual aqui vingou uma curiosa espécie de marxismo a que tenho denominado de “versão positivista” – era imprescindível tentar promover o debate da questão moral, o que tenho, de igual modo, procurado fazer. A primeira versão dos capítulos V, VI e VII, dedicados à emergência do movimento operário no século XIX, ao trabalhismo inglês e à social democracia alemã, apareceram em A questão do socialismo, hoje (1981). Depois refundi-os atualizei-os a fim de que integrassem o curso à distância, sobre social democracia, que o Instituto de Humanidades promoveu em parceria com a Universidade Gama Filho. Como Carlos Henrique Cardim estava preparando uma coletânea intitulada Formação e perspectivas da social-democracia, sugeri-lhe que incluísse os textos daquele curso, em que fiz pequenas correções. Basicamente esta é a forma em que são agregados a este livro, com as imprescindíveis atualizações. O estudo dedicado à terceira via, que constitui o capítulo nono, não foi divulgado precedentemente nesta forma. Achei recomendável reunir as referências bibliográficas ao fim do livro, e não apenas nas notas de rodapé, aproveitando o ensejo para mencionar outras fontes consultadas. Ao leitor interessado no assunto, recomendo o mencionado Formação e perspectivas da social democracia, de Carlos Henrique Cardim. E, a quem desejar conhecer o posicionamento liberal em face da corrente social-democrata, de forma mais aprofundada da que efetivo, no capítulo final, sugiro a coletânea organizada por Ubiratan Macedo: Avaliação crítica da social democracia: o exemplo francês.
