Sob os Escombros -

    Cinthia Kriemler

    Patuá
    2014
    138 páginas
    4h 36m
    ISBN-13: 9788582970645
    Português Brasileiro

    "Lembrança é vida soterrada. Escondida sob escombros fundos, onde a dor se acomoda em letargia e desistência por um tempo longo demais, curto demais. Conveniência? Ou seria medo o que nos faz insistir no esquecimento? Sofrer é hábito descuidado. E a gente nem percebe há quanto tempo não sente alegria. Ou paixão. Ou vontade. Ou qualquer coisa que aqueça o coração. Segundos, anos... Quanto tempo se leva sendo triste? Tornar-se infeliz é bordado lento. É como poeira nas roupas, que se assenta em camadas finas, toldando o viço, deturpando os fios da trama. Ser triste leva uma vida. A vida que depois a gente esconde na memória. E pensa que esqueceu." (Trecho do conto Sob os Escombros)

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    Vivian de Moraes16/08/2017Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Suicidas e solitários sob os escombros

    "Sob os escombros" (Patuá, 2014), livro que reúne 18 contos da escritora Cinthia Kriemler, tem mesmo qualquer coisa de desmoronamento, se não material, pelo menos, moral. E é no silêncio da existência de cada uma de suas personagens que os narradores desnudam aspectos pouco agradáveis de se abordar. Cinthia não teme o risco de desagradar ou ferir. Expõe o cadáver à luz. Repleto de ocorrências sobre suicídio, por exemplo, o livro se caracteriza pela incompletude solitária que está em cada um de nós. Se, por um lado, os temas dos contos são sombrios e dolorosos, o estilo foge à secura às vezes considerada apropriada para tal abordagem. Cinthia tem o domínio da narração e sabe onde aplicar recursos estilísticos que aliviam agora para fazer doer mais tarde. Podemos dizer que, em momentos, o livro é pura poesia. Como na abertura de "Ultimo clarão": "Cerro os olhos para enxergar melhor a memória. Talvez por isso este aroma de saudade que minhas narinas engolem e expelem, libertando a cada vez uma brisa diferente de lembranças. Meus ouvidos estão escancarados como portas e neles rodopiam melodias que eu não sabia que ainda estavam lá. As mãos ávidas do pensamento emaranhado encontram, por fim, todas as pontas soltas, e reconstroem o bordado das emoções escondidas pelos anos." As histórias contadas em "Sob os escombros" põem o leitor nos sapatos das personagens, ainda que este relute contra isso. Não há gente boazinha no livro, exceto Dona Antônia, do conto homônimo. Mesmo assim, se nesse conto ela é a virtude, sua filha Carla é o contraponto, o egoísmo, a cegueira sentimental. Aliás, esse tipo de cegueira está presente também em outras narrativas: "Monólogos em desencontro" demonstra isso de forma brilhante. Nela, Clarice e Ernesto, um casal que já foi apaixonado, vive, cada qual, uma solidão inexplicável. Eles evitam se separar, pois se lembram dos bons tempos, mas olham com amargura para o momento presente. A respeito de amor, vale a pena destacar o conto" Sombras de carne". Nele, Lola, uma fogosa feirante casada com Xavier, faz das entregas aos clientes uma segunda vida, deitando-se com eles. O narrador nos conduz a segui-la por uma aventura na zona de meretrício: "[...] Nos muros, as sombras dos corpos que faziam sexo não a assustavam tanto quanto os corpos que enxergava em carne e osso consumindo-se perto dos barcos, na areia, ou nos carros estacionados ao longo do meio-fio. Correu para afastar-se daquelas Lolas multiplicadas em trepadas rápidas, daqueles espelhos incômodos. Sentiu-se enjoada. Encostando-se nas grades de uma loja fechada, vomitou, mas logo retomou a caminhada, com passos ainda mais rápidos." O que o leitor vai descobrir é que não é apenas Lola que tem segredos. Seu desejo a leva a uma realidade inimaginável. Aquelas Lolas multiplicadas em trepadas rápidas são todas inocentes, não sabem, ainda, o que é a traição. O desespero da busca de sensações e sentimentos alheios também faz parte da narrativa de Cinthia em “Sob os escombros”, como pode-se ler na abertura de "Estranhas": "O gemido estridente da porteira destravada não afetava as fisionomias entretidas na rotina de trabalho que ia a meio naquela manhã de brisa cheirosa. Olhando assim para eles, cada um enfeitiçado em sua própria lida, ficava difícil dizer, por meio de uma análise apressada, se, além do esforço mecânico, existiria naqueles homens e mulheres um pouco de qualquer coisa que se parecesse a sonho, desejo, raiva, inquietação. No entanto, uma cumplicidade invisível entre aqueles rostos desprovidos de emoção dava-me a certeza de que se eu nadasse mais fundo, em águas mais turvas, esbarraria em um pulsar latente, em um desconforto mal-acomodado, em uma erupção disfarçada." Mas, aqui, trata-se de uma reflexão um tanto cínica. Ao longo do texto, a personagem-narradora deixa claro que só pensa em si própria, que sempre foi assim. As consequências disso são catastróficas. Muitos dos contos têm a presença de cães fiéis. Em outro deles, há uma rata que demonstra ingratidão, mordendo seu dono e fugindo. De qualquer forma, são companhias mais confiáveis do que os humanos. Cinthia parece querer fazer crer que o “próximo” está mais distante de nós do que o diferente, ou seja, o animal confiável. Isso vale para mães, pais e filhos. A difícil relação entre eles se encontra em vários dos contos como algo que parece impossível. Talvez seja mesmo. Quanto ao conto que nomeia o livro, curiosamente, não é uma narrativa de desalento total. Há uma nota melancólica, por certo, e é um conto que mais sugere do que mostra. É um conto poético, tocante, bonito. Nele, como em praticamente todos, a configuração mental das personagens é complexa. Depois de "Sob os escombros", Cinthia publicou outro volume de contos: "Na escuridão não existe cor-de-rosa" (Patuá, 2015) foi semifinalista no Prêmio Oceanos em 2016. Agora, aposta em um romance, gênero em que se inicia, "Todos os avisos convidam para um mergulho", também pela Patuá, lançado em agosto de 2017. Leia aqui um conto de "Sob os escombros" na íntegra: Arremate Escuto o uivo do cão e por um momento quero voltar e abraçá-lo e lhe dizer que eu também preciso gritar. Mas se eu me virar sei que nossos olhares se encontrarão em solidão e ele vai me pedir que o leve comigo. Não posso. Não quero enganar o cão. Ele sabe. Lambeu tantas vezes meu rosto aguado de tristeza. Deitou-se em cumplicidade enquanto eu maquilava de afeto as máscaras. Foi um cão fiel. Caminhou ao meu lado, saltou feliz, abanou o rabo e latiu à porta. Mas foi também um amigo de silêncios prestados. Para onde vou não se leva um cão fiel. Apenas a carcaça dos erros e a pressa de esquecer o que é supérfluo: amor, decência, humanidade. Adeus, cão. Agora que fechei a porta entre nossos destinos, tudo fica mais fácil. O caminho hoje está molhado. Eu prefiro assim. Não gosto quando os sapatos roubam o pó vermelho da estrada. Nem de deixar pegadas rasas que qualquer vento apague. Quando chove tudo é diferente. A caminhada afunda na abundância do barro e a terra se abre a um gozo de estocadas. É bom que ir seja em dia de chuva. Talvez eu também chova se ainda souber. Talvez eu tente desfazer o nó que desoxigena meu peito. Talvez eu só sinta saudade. Do armário cheio de roupas compradas para ir onde nunca fui. Da estante com santos, duendes, budas e patuás exaustos de me negar pedidos. Da risada estridente dos filhos que não tive. Do verde intenso roubado a uma janela aberta. De cada homem ao meu lado sob o lençol do dia seguinte. Do cão. Talvez. Mas de uma coisa tenho certeza: quero gritar entre a agonia e o livramento. Porque é bom que ir seja em som. É justo que a alma se esvazie num vômito barulhento. Até que o ritus se complete. E tudo seja paz ou nada. Antes de tanto, porém, um arremate. Preciso de alguém que me faça um último favor. É que me esqueci de mandar soltar o cão. Se ninguém abrir a porta, ele vai morrer sozinho. De fome, de sede, de abandono. O cão, não.

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