“Ela caminha, escreve Peter Morgan”. Assim começa O Vice-Cônsul: com a inserção, no corpo desta história, de uma outra história – a da mendiga – que, através de uma aparente diferença e autonomia, esconde a função especular que as une. Na longa marcha que empreende entre Battambang – terra natal – e Calcutá – onde fica – a mendiga perde progressivamente toda a memória e identidade, tornando-se vacuidade pura, uma morta viva: “a morte numa vida em curso”. E de todo o seu passado perdido, esquecido, resta-lhe uma palavra – Battambang – e a melodia infantil que ela canta. Do mesmo modo na história que lhe serve de moldura Anne-Marie Stretter e o vice-cônsul de Lahore, executando percursos similares ao da mendiga, sofrem igualmente ao longo deles uma mesma perda de memória e de identidade. E, tal como a mendiga, do seu passado perdido, o vice-cônsul guardará apenas uma melodia que assobia: Indiana’s Song: e Anne-Marie Stretter a sua música de Veneza – terra natal -, que faz ouvir ao piano nas noites de Calcutá.
O Vice Cônsul -
Marguerite Duras
dá pra fazer com este livro uma comparação que é estapafúrdia e pertinente. as pessoas estão oh surpresas e oh chocadas porque ninguém percebeu que o tal do trump venceria, e ah mas foi igual com a saída da inglaterra do reino unido. como assim? o cara teve meio estados unidos mais alguma coisa de votos, será que todos se surpreenderam tb? A questão é que há no mundo atual, ao lado da tecnologia de ponta, uma estupidez de ponta também, sobretudo quando se trata de especialistas. por exemplo, ouvi no painel da globo/cbn sábado à noite os cara, de novo, fazendo previsões, como se tivessem toda autoridade para isso, como se soubessem tudo – quando foram a face mais desastrosa do erro, pois tiveram tudo que um usuário de twitter seguidor não tinha e sabia: o donald trump tem de vencer, porque nós estamos agindo, e é um engajamento contínuo, de 24 horas por dia. Há portanto aqui um conhecimento não acadêmico e não midiático quase que sem margem de erro. na saída da inglaterra o fenômeno foi outro, foi burrice mesmo, acharam que era evidente que as pessoas diriam que queriam ficar na europa e, claro, interpretaram as pesquisas dessa forma. As pesquisas estavam erradas porque a interpretação estava. Não havia margem de erro que mudasse o entendimento dos sábios. Mas na eleição americana não, os números diziam que era possível a vitória de trump e pior pros números, porque os especialistas os rejeitaram. O que tem isso a ver com O vice-cônsul? então. você começa a ler e a relação é imediata: isso é O amante, só que num outro texto, mais sofisticado. o amante, lembremos, é o best-seller de Duras que ganhou o premio goncourt e tem algumas particularidades. embora toda a obra dela seja mais ou menos autobiográfica (não vou dizer como qualquer outra, embora talvez devesse), o amante é nesse sentido um ponto fora da curva, ou dentro, porque é a própria vida de Marguerite romanceada. Mas por razão misteriosa, embora desde sempre cult, ela nunca foi popular, pelo contrário, a ligação dela com o pedante novo romance francês (pedante e gerador de ótimas obras, diga-se). De repente, se tornou. Mas por que, se é o mesmo tipo de tema, o mesmo tipo de escrita, a mesma autora, a mesma vida, o mesmo tudo? Não vou dar uma de especialista e explicar a razão, mas dá perfeitamente para imaginar algumas coisas, dentre as quais: O amante é mais honesto, o que num livro é essencial. É honesto do ponto de vista dela, que abandona (por um tempo...) o nariz empinado de gênio e simplesmente escreve a história. Simplesmente modo de dizer, é claro, porque quando se trata de duras, nada é simples. Mas fez isso e houve essa resposta das pessoas. Lembro que quando li a primeira vez pensei meu deus isso é o que eu sempre quis fazer, esse tipo de escrita, o que sempre quis na verdade ler (e pra quem escreve a melhor coisa a faze quando a gente não acha um determinado estilo para ler, é cria-lo). Outro ponto: ganhou um premio literário importante, o mais importante da frança (poderia ser até o nobel, se claude simon pode, mas deixa quieto). Ganhou mais ou menos pela mesma razão. É facinho enganar um júri metido a besta, mas não é quando o júri metido a besta tem uma relação com os leitores. Parece ser o caso do goncourt, pegando a lista dos vencedores. Tipo “a rendeira” recebeu o premio, embora jamais seu autor teve qualquer reconhecimento. Não teve vírgula, só o tempo dirá e isso é o terceiro ponto: O tempo é quem determina a qualidade de uma obra, não a sabedoria dos especialistas (o que inclui, infelizmente, leitores comuns, como a gente ve poelo tanto de resenhas metidas a besta de quem não tem capacidade de ler bula de remédio infantil) (por exemplo, alguém que dá 1 estrela pra meridiano de sangue porque não pQ dar menos – eu não gosto de Ulisses, não tem jeito, mas não tenho o direito de espalhar isso aos quatro cantos porque, apesar de mim, é um marco na literatura, eu goste ou não.) O tempo deve determinar que O vice-cônsul é um clássico, do jeitinho que o tempo determinou que trump é o presidente. E quanto mais tempo se passar, mais clássico será. Aí vc pega a página do livro e tem meia-dúzia de leitores. Azar dos leitores. Até porque são os mesmos que adoraram O amante. Eles têm razão, por um lado, porque de fato, não raro soa meio pretensioso (o que jamais acontece com O amante). Ainda assim, é um clássico, é um livro maravilhoso. Porque vamos combinar que se uma obra dependesse de virtudes pessoais de seus autores, a literatura estava lascada. É maravilhoso pelas sobreposições de história, pelas personagens que se opõem e completam, pela escrita fluida só “meio noveau-roman” – no presente dando primazia a coisas inanimadas só até a página 2 etc. pelos temas de sempre - amor, sexo, loucura, perversidade, poder – mas realçados a uma outra dimensão pela escrita sobrenatural de duras, a um tempo de simplicidade quase infantil e de sofisticação digna de joyce. Um livro fácil na mesma proporção que é denso. Pelos ecos na vida de hoje, nos fenômenos de hj – incluindo trump. E, pra mim, especialmente porque mostra uma coisa que sempre achei e acho com mais convicção: uma obra não depende de divulgação, da fama do autor, ou seja lá o que, mas depende unicamente do leitor inserido no tempo – uma união – leitor/Tempo – que vamos começar a contar nos dedos quantos autores conseguiram. Pra tornar a coisa mais simples, se eu sou um leitor de clássicos – eu aliás sou – (leitor/Tempo), é claro que se gosto de um livro – com esses cuidados a que me referi, da subjetividade -, tenho condições de determinar, na medida em que partilhar (como a presente resenha), o que será (ou já é um ótimo livro) no sentido de clássico, do jeitinho que os tuiteiros tinham condições de dizer quem ia vencer as eleições. Parece complicado? É simples demais. Porque (como a presente resenha), os “leitores” das redes sociais faziam o que? – interagiam – partilhavam – a verdade que sabiam – e hoje, em retrospecto, pode-se ver que não foi surpresa, ou não deveria ter sido, a vitória do cara. Eles não passavam batido por um vídeo da campanha, eles curtiam, partilhavam – ao contrário da imprensa, da campanha da hillary, dos especialistas enfim – que apenas divulgavam o que lhes interessava divulgar, sem qualque engakamento, como se para ela vencer bastasse eles quererem, sem qualquer outra forma de interação. Trump fez seus eleitores saírem de casa pra votar. Tenho certeza (eu, leitor no Tempo), que um dia lerão essa resenha não como palavras ao vento de um maluco, mas como a de um leitor de clássicos, que, por isso, tem alguma autoridade pra dizer (o que nada mais é que partilhar a opinião de muitos outros leitores inseridos no tempo, o que talvez devesse chamar simplesmente O Leitor) que O vice-consul é um livro único, poderoso, profético, mas sobretudo uma leitura para lá de agradável e confortadora, porque no final, nós vamos rir por último. Mas nós, devo dizer, não inclui a elite cult que hj adora Duras. Esses são apenas pernósticos. “Nós” somos não o que ama duras em seu círculo restrito de autora, mas a amam como autora-personagem de O amante – aquela para quem o próprio, numa metáfora do Leitor, liga e diz que sabia que ela tinha começado a escrever livros. Cedo ou tarde, todos acabam sabendo
Estatísticas
Avaliações
3.6 / 9- 5 estrelas22%
- 4 estrelas56%
- 3 estrelas11%
- 2 estrelas0%
- 1 estrelas11%
