"Pensar na Idade Média" é um livro que marca uma necessidade. Não apenas da filosofia, mas da história. Desde a emergência, na segunda metade do século XX, do que se convenciona chamar de pós-estruturalismo e do pensamento pós-moderno, a história se vê presa ou atordoada pela chamada "crise dos paradigmas". Esse livro do brilhante Alain de Libera pode não ser a resposta definitiva, mas talvez uma placa de sinalização.
O título do livro, como diz o autor, marca uma dupla significação: o ato de pensar - a experiência do pensamento - durante o período medieval; e pensar retrospectivamente, lembrar do período que se chama Idade Média. Na França do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, de todas as partes diz-se haver um "retorno da Idade Média". Libera demonstra, facilmente, que a Idade Média que retorna não é aquela que foi, mas sim aquela que se fantasia ter sido. Uma Idade Média obscurantista, conservadora, violenta, que é evocada para justificar todas as faltas da contemporaneidade.
O esforço de Libera em demonstrar (através da crítica de "Os intelectuais na Idade Média" (1957), de Jacques Le Goff) que a Idade Média estava longe de ser um período simplório e obscurantista intelectualmente restabelece à Idade Média seu lugar de direito na história do pensamento do Ocidente, tão devastado pela história intelectual ocidental. Ao mostrar que as pessoas, particularmente os universitários de Paris, participaram de um processo intelectual que dependia do Outro ou, mais precisamente, do pensamento do Outro, Libera põe por terra a Idade Média como justificativa para o ódio xenofóbico e conservador dos franceses de sua época.
E, no mesmo golpe, o autor é capaz de realizar uma análise do discurso intelectual dos séculos XIII e XIV que põe em cheque uma análise sócio-histórica que fazia escola por quase 40 anos à sua época. De perspectivas renovadas por leituras como a de Jacques Lacan, Martin Heidegger, Michel Foucault, Libera brilhantemente dá nova vida à Idade Média tardia através de uma leitura precisa e profunda dos próprios autores medievais. Sua análise não se vale de categorias abstratas, modelos nos quais as evidências são enquadradas, mas sim das próprias categorias de pensamento correntes à época dos enunciadores dos discursos que formam o objeto de seu estudo.
O livro de Alain de Libera constitui um verdadeiro marco. Através de um rigor teórico e metodológico que não se acanha diante da crise paradigmática que paralisou a maioria dos historiadores e por seu vasto conhecimento dos textos filosóficos dos mestres parisienses, se dá a própria restituição da ideia de uma filosofia medieval. O justo sucessor de Étienne Gilson na cadeira de história da filosofia medieval do Collège de France é capaz de derrubar, de uma só vez, os muros da ilegitimidade do medievalismo nos tempos atuais e da estagnação da história.