Um homem contemporâneo só pode dizer onde esteve, e editar as vozes desses lugares. Assim, mais do que nunca, o “lugar” é a voz, e simplesmente pelo fato de que este nunca existe ou existirá. Este homem vê um viaduto brilhante pela pequena janela de um ônibus trans-estadual, e aquela pequena cena sulcada, retangular, pintada eletricamente em camadas do vidro visto é a única moldura que resta de verbo ao espectador atento. Porque não há um continuum perceptivo, mas pequenos sustos de descontinuidade e irrupções de medo, retórica e certo nonsense calculado. E a poesia de hoje é um pesar e uma constatação assustada, uma “música toda feita de reminiscências” (como dizia o compositor italiano Donizetti sobre sua obra) e também o “outro lado”. E este pequeno livro deve tudo, portanto, ao romantismo inglês, a Celan, a Pound, a Haroldo e Augusto de Campos, a Octavio Paz, ao Beat Ginsberg, a Drummond e Murilo Mendes, e à tentativa de escansão das melopeias próprias dentro da tradição da poesia em língua portuguesa.