Um reflexo sobre o amor natural O amor natural é como a beleza que ele próprio persegue, gracioso como a gazela, ligeiro como a carreira elegante de um puma. Nada parece tão imediatamente próximo de seu objeto, pois ainda que um oceano inteiro o separe da amada, ela está invariavelmente presente na recordação incansável e no projeto do futuro. O amor natural é belo em vias poéticas, e a inocência corre-lhe ao encontro; quando a sabedoria se lhe une, a arte adeja e pousa nas recâmaras do saber. O momento resplandece matizes perceptíveis a olhos enlevados. O amor é o aspecto primaveril da vida, o vinho suave que beija a taça que te inebria a alma, perturbador como fogo que se alastra, pluma sob a brisa tênue, vagalhões contra a perícia do timoneiro... mas se era inocente na raiz do matrimônio, não assim quando calca a fidelidade para manter-se ativo. A valsa do crepúsculo O que há de seguro em uma esperança não ilusória não pode estribar-se sobre o que, por essência, não é estável. A fidelidade humana é um arroubo da paixão e o ímpeto da promessa. Sua generosidade, um frescor intacto e ainda não testado pela ingratidão, nem tentado ao ressentimento. Seu amor, uma nau formosa de casco todavia frágil e suscetível ao naufrágio. Sua paz, uma bandeira branca que alardeia o fim da guerra, mas cuja alvura enegrece à primeira ameaça de conflito. Sua concórdia, apenas um partido acorde na discordância. Sua justiça, um acomodado descanso da volúpia inerte contra seus impulsos, ou a força que se imagina em defesa de uma causa que não sabe examinar-se nem enxergar a própria debilidade. Não! A esperança não alicerçada sobre uma base sólida é uma ilusão. E a ilusão é uma névoa formosa que esconde a crueza da realidade. E essa névoa, o agregado de desejos de uma alma embriagada em quimeras inconsistentes. E esse monturo de anseios, o vaivém descuidado que calcorreia de uma opinião para outra sem a real ciência do que deveria perseguir de todo coração. E esse descuido inconstante, a volúvel presunção de uma vontade que se pensa estável por mostrar-se intensa. E essa presunção frívola, a empáfia sabichona de sua indiferença. Os lírios do campo e as aves do céu Talvez digas com o poeta: "Sim, quem pudesse construir sua casa e habitar junto do pássaro, escondido na solenidade arborizada, ali onde o pássaro e sua companheira são uma parelha, mas onde não há uma sociedade; ou, quem pudesse viver junto do lírio na paz da campina, onde cada lírio se preocupa consigo mesmo, e onde não há uma sociedade... quão fácil lhe seria lançar todo seu cuidado em Deus e chegar a ser absolutamente alegre! Mas a sociedade, a sociedade é a desgraça na qual o homem é a essência que se atormenta e aos demais com a desditosa utopia social, do bem-estar social; e atormenta-se ainda mais, para a perdição dele e dela mesma, quanto maior seja essa sociedade." Entretanto, não fales assim; de modo algum. Considera o assunto mais de perto e confessa envergonhado que, a despeito do cuidado, o pássaro e sua companheira constituem parelha enlaçada pela amorosa alegria indescritível; e que o lírio celibatário, a despeito do cuidado, acha seu gozo no celibato. E acaso não é essa alegria que faz com que a comunidade não lhes estorve (já que entre eles não há comunidade)? Considera o assunto mais de perto e confessa envergonhado que em realidade são o silêncio e a obediência absolutos (com os quais o lírio e o pássaro se alegram incondicionalmente com Deus) o que lhes fazem igualmente alegres, igual e absolutamente alegres quer na solidão quer em sociedade.

