Embora apresentem amplas variações em termos de incidentes, de ambientes e de costumes, os mitos de todas as civilizações oferecem um número limitado de respostas aos mistérios da vida. Em 'O herói de mil faces', Joseph Campbell - reconhecidamente, um dos maiores estudiosos e mais profundos intérpretes da mitologia universal - apresenta o herói compósito; Apolo, Wotan, Buda e numerosos outros protagonistas da religião, dos contos de fada e do folclore representam simultaneamente as várias fases de uma mesma história. O relacionamento entre seus símbolos intemporais e os símbolos detectados nos sonhos pela moderna psicologia profunda é o ponto de partida da interpretação oferecida por Campbell. O ponto de vista psicológico é, então, comparado com as palavras proferidas por grandes líderes espirituais, como Moisés, Jesus, Maomé, Lao-Tzu e os Anciãos das tribos australianas. Oculto por trás de um milhar de faces, emerge o herói por excelência, arquétipo de todos os mitos. "Sem dúvida - afirma o Autor na introdução a este volume - há diferenças entre as diversas mitologias e religiões da humanidade, mas este é um livro a respeito das semelhanças. Uma vez compreendidas as diferenças, descobriremos que são bem menores do que popularmente (e politicamente) se supõe. Minha esperança é a de que essa comparação possa contribuir para a causa das forças que atualmente trabalham pela significação, não em nome de algum império político ou eclesiástico, mas no sentido de um entendimento mútuo entre homens. Pois, como dizem os Vedas: "A Verdade é uma só; os sábios se referem a ela por muitos nomes."
O Herói de Mil Faces -
Joseph Campbell
Leitura densa, mas profícua
Joseph Campbell é considerado uma das maiores autoridades em mitologia comparada e escreveu o prestigiado clássico O Herói de Mil Faces; que investiga, traz luz e compreensão para o monomito (neologismo emprestado de James Joyce) da jornada do herói. "O percurso padrão da aventura mitológica do herói é uma magnificação da fórmula representada nos rituais de passagem: separação-iniciação-retorno que podem ser considerados a unidade nuclear do monomito." Joseph Campbell O livro foi publicado em 1949 e desde então é mundialmente lido e usado como estruturação de personagens e suas jornadas na literatura universal. Apesar de prolixo o autor traz um grande estudo delineado por ele da narrativa cíclica de dezessete estágios pelos quais o herói deve passar nos mitos e lendas que permearam incontáveis culturas em volta do mundo através dos tempos, traçando a estrutura do herói mediante numerosos protagonistas – como Hércules, Osíris, Édipo, Prometeu, Teseu, Ulisses, Buda, Moisés, Apolo, Psique, Maomé, Rama, Moisés, Lao-Tzu ou Jesus – que representam simultaneamente as várias fases de uma mesma história. Campbell também aborda a correlação entre os mitos e o inconsciente, onde mito provém do inconsciente, serve para restaurar uma conexão com este e deve ser interpretados simbolicamente. O esquema de Campbell que permite o herói sonhar em quebrar as convenções e se restabelecer com algum ganho, vem sendo exaustivamente replicado por grandes autores, diretores e grandes estúdios de cinema, se tornando um enorme e repetitivo clichê que funciona e cativa o grande público. Apesar de achar o livro um pouco cansativo, pelo amontoado de exemplos e pelo jeito que o autor molda todos os personagens mitologicos dentro da psicanálise freudiana e Junguiana, tenho que confessar que gostei de fazer essa leitura; conhecer e revisitar vários mitos, lendas, contos de fadas e histórias do folclore que o autor traz em sua interpretação do arquétipo do herói. Campbell também dedica-se a correlacionar os mitos da criação de várias culturas diferentes, traçando paralelos e mostrando as "incongruências e compatibilidades" entre eles com explicações curiosas... entretanto, penso que isso é um pouco reducionista para todas as culturas citadas: serem encaixadas em um molde único branco e eurocêntrico. Essa foi uma leitura que agregou para a melhor compreensão de alguns personagens e da disposição das jornadas construídas pelos autores que leio constantemente, mas julgo que isso ainda é apenas um padrão que não deve ser tomado como absoluto; como se outras estruturas narrativas de milhares de outras histórias pelo mundo já contadas, e que não se encaixam nessa narrativa de três atos, devessem ser descartadas. A abordagem do simbolismo dos mitos e o porquê de sua criação ao longo da existência humana é intrigante e foi interessante de ler. O Herói de Mil Faces foi uma leitura densa que me fez refletir sobre as histórias que já tive o prazer de conhecer. Recomendo para todos que se sentem curiosos com os pontos da estruturação narrativa de Campbell.
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