Ao longo dos anos 1970, Michel Foucault dedicou seu trabalho no Collège de France à análise do lugar da sexualidade na sociedade ocidental. Sua reflexão encontrou no sexo e na sexualidade a causa de todos os acontecimentos da vida social. O filósofo empreendeu uma pesquisa histórica, estabelecendo uma antropologia e uma análise dos discursos acerca desse tema tão fundamental para a condição humana. A trilogia que é reconhecidamente um dos grandes trabalhos do pensador ganhou nova capa, com o intuito de valorizar ainda mais a obra que há anos é fonte de pesquisa e consulta para milhares de estudiosos. Em História da sexualidade Volume 3 – O Cuidado de si, o leitor vai entender como a questão da verdade e o princípio do conhecimento de si se desenvolvem nas práticas de ascese. Precisamos procurar saber por que o culto a si mesmo desenvolveu-se até se transformar no que vemos hoje.
História da Sexualidade - O Cuidado de Si
Michel Foucault
Nesta continuação do volume 2 o uso dos prazeres, Foucault começa falando de Artemidoro, filósofo grego do século II d.C. que desenvolveu um método para a interpretação de sonhos, e mostra como eram interpretados os sonhos sexuais o que significavam, os valores atribuídos a determinados sonhos. Em seguida, fala sobre a cultura de si e a ética dos prazeres sexuais: como eles eram de certa maneira perigosos para o indivíduo, se usados em excesso ou fora das normas. O casamento e o papel político do cidadão estavam associados ao seu controle de si: se ele sabia governar-se bem, consequentemente saberia governar os outros. Posteriormente, Foucault traz os pensamentos do médico grego Galeno e outros médicos do século II d.C., que elaboraram prescrições para a saúde, através do cuidado com o uso dos prazeres sexuais, e a maneira pela qual eles deveriam ser usados no casamento, dependendo também de condições meteorológicas, entre outras. Após, Foucault traz como a sociedade da época pensava o casamento, e como os filósofos defendiam-no ou o debatiam. Assim, a relação com a mulher ganhou mais atributos de reciprocidade, valorizando-se cada vez mais a fidelidade e a austeridade do marido, bem como sua preocupação com respeitar a dignidade da esposa, mais do que no passado. Por fim, o autor fala sobre como o entendimento da relação com os rapazes começa a mudar: o que para os gregos do século IV a.C. era uma relação virtuosa e de amizade, um amor verdadeiro, passa a ser considerado como inferior, perdendo espaço para a valorização do casamento. Além disso, comenta-se um debate interessantíssimo da época entre os partidários do amor pelas mulheres e do amor pelos rapazes, e a hipocrisia que circundava esse último, porque os seus defensores sustentavam que não havia nenhum prazer sexual envolvido: as relações com os rapazes seriam sempre de uma amizade, uma admiração distante, olhos nos olhos, teoricamente e na realidade, os prazeres sexuais estavam sempre envolvidos. Finalmente, o livro termina dando pinceladas em como o cristianismo interpretaria o casamento, os prazeres sexuais, e a relação com os rapazes, mas infelizmente o autor faleceu antes de poder terminar o quarto e último livro da série, "As confissões da carne". Assim termino a leitura dessa "trilogia" da sexualidade. O primeiro livro fala da modernidade, dos discursos sobre a sexualidade e a sua "repressão" nos séculos XVIII e XIX. No segundo livro, ele volta 2.000 anos no passado e fala dos gregos dos séculos IV a.C..No terceiro livro, são tratadas as mudanças desse pensamento grego entre os séculos II a.C. e 3 d.C.. Meu favorito dos três livros foi o segundo O uso dos prazeres. O primeiro relaciona-se mais nitidamente com o pensamento da sociedade disciplinar, e fica um pouco à parte dos outros. Já o terceiro e último é basicamente uma continuação do segundo.
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