Não tenho o hábito de comprar livros às cegas, isto é, sem ter recebido nenhuma indicação ou procurado alguma resenha antes. Contudo, As variações de Lucy foi uma exceção. Houve uma identificação instantânea, primeiramente com a capa, acima ilustrada e, em seguida, com a apresentação na orelha esquerda.
Existem duas expressões artísticas que alcançam a minha alma como nenhuma outra: a música e a literatura. Até hoje não descobri qual me toca mais; porém, com este livro, percebi que muitas vezes andam de mãos dadas. Afinal, toda canção é um poema e todo texto tem sua própria melodia.
A história gira em torno de Lucy, uma jovem menina prodígio de dezesseis anos que havia alcançado o auge no mundo da música clássica, mas que abrira mão de tudo devido a turbulências pessoais. O livro trata da redescoberta da juventude então perdida, da vida e do amor - não apenas o amor romântico, mas como uma visão de mundo. Fala sobre o que impulsiona nossa alma, o que nos leva a um êxtase existencial.
Não é um livro para qualquer pessoa. Não espere por ação, aventura ou romances avassaladores. É uma obra sensível e delicada, com uma pitada de humor quando apropriado. O tema principal é o auto-conhecimento, os sentimentos, as naturezas humanas e o amor - todos muitas vezes controversos.
Tudo isso é brilhantemente mesclado à música. Não consigo imaginar uma pessoa que não aprecie verdadeiramente esta arte saboreando tudo o que este livro tem a oferecer. Várias obras eruditas são citadas, e a leitura se torna ainda mais especial quando se as ouve.
Eu toco piano há três anos, e parei de estudar há pouco tempo. Como com a personagem principal, a música havia se tornado algo meramente mecânico pra mim, de modo que não havia mais sentido em espremer meus horários para tomar aulas. Mas, com esse livro e, juntamente de Lucy, consegui redescobrir a música, facetas de mim mesma e da vida. Portanto, esta se torna uma resenha bastante pessoal. Não conseguiria falar imparcialmente quando encontrei tanto de mim nessas páginas.
Em todo caso, recomendo o livro para quem busca uma leitura sensível, tranquila, reflexiva e inteiramente regida pela música. Cada palavra é uma nota, e a obra inteira é uma bela sinfonia a ser lida.
Para terminar, um trecho do livro que achei lindo [sem spoiler]:
Música, seu avô sempre lhe dizia, era linguagem. Uma linguagem especial, um dom das Musas, que todas as pessoas nascem compreendendo, mas só alguns - poucos - conseguem traduzir completamente. [] Ouvir e tocar são duas coisas diferentes; cada uma envolvia seu próprio tipo de tradução. [] Sim, o mundo era lindo. Mas a música fazia com que aquela beleza pertencesse a cada um, de um jeito só seu. Nada mais poderia fazer isso. Nada.