Lampião - Senhor do Sertão

    Élise Grunspan-Jasmin

    Edusp
    2006
    392 páginas
    13h 4m
    ISBN-10: 8531409136
    Português Brasileiro

    A imagem de Lampião, narrada pelos seus contemporâneos, é fortemente marcada pelo pathos e pela emoção. Ele foi o primeiro cangaceiro a cuidar de sua personagem, utilizando métodos de comunicação – especialmente a imprensa e a fotografia – para impor a imagem que queria de si mesmo. A contraimagem foi devolvida regularmente, a cargo dos diferentes protagonistas da luta contra o cangaço. Os documentos sobre a vida de Lampião são inumeráveis: biografias, obras de ficção, relatos orais, autos de processos, telegramas, poemas de cordel, entre muitos outros. A documentação farta e cheia de contradições reflete as diferenças de percepção da personagem segundo contextos e narradores diferentes. A historiadora Élise Grunspan-Jasmin busca, neste livro, construir a biografia de Lampião repercutindo as diferentes vozes envolvidas nessa construção, abrindo-lhes espaço e, ao mesmo tempo, analisando seu discurso para revelar a sua polissemia.

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    Marcel Fortes Portela29/03/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Lindeza de Tese

    A tese de doutorado de Élise Grunspan-Jasmin é um olhar de Além-Mar sobre Lampião, sua biografia, seu mito e sua memória, as suas vidas e as suas mortes. Um estudo de história cultural, sobre os dois Brasis, o do litoral e o das backlands. A autora compila uma quantidade impressionante de artigos de jornais (do interior e das capitais do Nordeste), recupera os debates da época, faz uma linda síntese de um século de literatura do cangaço. Todos os aspectos da vida de Lampião são explorados em profundidade: as suas origens familiares, os crimes mais ousados, a passagem por Juazeiro, a derrota em Mossoró, o romance com Maria Bonita, a emboscada na grota do Angico e mesmo o destino do seu espólio e da sua cabeça. A cabeça que virou peça de museu e objeto de estudos de frenologia até, finalmente, ser enterrada, após campanha de anos dos seus familiares, com apoios políticos de peso e mobilização de jornalistas que resultaram em um decreto do Congresso Nacional, autorizando o sepultamento. Lampião era um católico heterodoxo, que misturava devoção mariana com práticas mágicas, orações fortes, fechamento de corpo e quimbanda. Curioso saber que ele andava com um “Adoremus”, como esse que a @editoradomusaurea reeditou recentemente e presidia os ofícios matinais com os seus cabras. Lampião era homem mau, mas o seu mito é ambíguo nele predominando notas positivas (como acontece também com os salteadores medievais ou os vikings, sem que isso escandalize ninguém ou convide revisionismo histórico de direita liberal). Grunspan-Jasmin faz a genealogia dessa leitura positiva do mito: ela nasce nos anos 50, com o movimento organizado dos camponeses, com a luta contra o latifúndio. As Ligas abortadas pela Ditadura. Lampião não era santo como o Bom Jesus de Canudos, mas, como ele, foi perseguido, viveu corrido e não teve terra onde reclinar a cabeça. Nenhum dos dois foi reintegrado ao Nordeste semifeudal, foram mortos e suas cabeças expostas em museus. Até a terra do sepulcro lhes foi negada. “Leitores vou terminar Tratando de Lampeão Muito embora que não posso Vos dar a resolução No inferno não ficou No céu também não chegou Por certo está no sertão” (José Pacheco)

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