Uma coletânea de contos brasileiros e argentinos com abordagens, de diferentes ângulos, a temática dos direitos humanos e da tolerãncia.
Vinte ficções breves - antologia de contos argentinos e brasileiros contemporâneos
Violeta Weinschellbaum (ORG.)
Argentina 4 x Brasil 3
A antologia compreende histórias curtas de autores brasileiros e argentinos contemporâneos, mas como foi publicada em 2002 não traz tanta novidade assim em relação aos textos nacionais. Por outro lado, dentre os textos argentinos não há nenhum de Cortázar ou Borges, claro. A maioria é de desconhecidos para os leitores daqui, exceção feita a Ricardo Piglia e Juan José Saer. Por falar nos argentinos, as melhores histórias da coletânea são deles. Que estão muito bem representados pelos seguintes textos: Duchamp en México, de César Aira, Un Ciudadano en la Tormenta, de Marcelo Cohen, Muchacha Punk, de Rodolfo Enrique Fogwill e Vivir en la Salina, de Elvio Gandolfo. Dos textos brasileiros destacam-se Aqueles Dois, de Caio Fernando Abreu, Família é Uma Merda, de Rubem Fonseca, e Atualidades Francesas, de Moacyr Scliar. As histórias brasileiras estão em português e as argentinas em espanhol: não é uma edição bilíngue. Nas duas línguas estão apenas a Apresentação, o Prólogo e as pequenas biografias dos autores no final. Podemos ter alguma dificuldade para entender plenamente todos os textos em espanhol, mas muito pior será para os leitores argentinos que se aventurarem a ler o conto de Olga Savary, Curare, um verdadeiro pé no saco, ainda que extremamente curto. Coisas de coletâneas... A seguir um resumo das histórias pela ordem do sumário: 01 Aqueles dois, de Caio Fernando Abreu, in Morangos Mofados, SP, Brasiliense, 1982. Com subtítulo e tudo (História de aparente mediocridade e repressão), o conto versa sobre dois homens solitários, Raul e Saul, funcionários de uma pequena empresa. Com o tempo e aos poucos eles se aproximam mais, tornam-se muito mais amigos, descobrem ter gostos semelhantes ou próximos etc. Tudo isso leva os demais funcionários a pensar que entre aqueles dois há muito mais do que amizade. (4 estrelas) 02 Duchamp en México, de César Aira, in Taxol, BA, Simurg, 1997. Em visita à cidade do México, turista argentino avesso ao consumismo compra, por uma pechincha, livro de arte sobre Duchamp, muito caro em Buenos Aires. Numa outra livraria encontra o mesmo livro mais barato ainda e também o adquire. E assim sucessivamente, em diversas livrarias. Faz inúmeros cálculos e conclui que quanto mais gasta mais economiza, o que o conduz à ideia de rendimentos decrescentes. Quem ganha mesmo com essa história é o leitor frente a um escritor genial, César Aira. (5 estrelas) 03 Como o máscara de ferro, de Marina Colassanti, in O Leopardo é um Animal Delicado, RJ, Rocco, 1998. Homem ocidental narra como, aos poucos, seu rosto passou a adquirir traços orientais, chineses, sem encontrar uma explicação plausível para o fato. Esconde a cara, muda de cidade, mas o processo de orientalização continua e sua preocupação cresce. Pensa que quando tudo terminar irá se sentir prisioneiro desse rosto para sempre, feito o personagem do livro de Alexandre Dumas. (3 estrelas). 04 Un ciudadano en la tormenta, de Marcelo Cohen, in Revista Mil Palabras, BA, n. 3, otoño 2002. RS, 37 anos, pai de 2 filhos, ouve na tevê a notícia sobre um garoto que morreu durante a recente tempestade porque um galho apodrecido de uma árvore caiu sobre ele. Preocupado, procura evitar que isso aconteça em sua própria rua e acaba envolvido numa sequência absurda de fatos. Mas a história é interrompida a toda hora pelo próprio Cohen, numa experimentação formal que coloca RS na própria tormenta vivida pelos argentinos naqueles dias. (4 estrelas). 05 Família é uma merda, de Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas, SP, Companhia das Letras, 2002. Valdo, na verdade Oduvaldo, habitante da zona portuária, no momento desempregado, conhece Geni, na verdade, Genoveva, moradora da zona central do Rio, gerente de farmácia. Ela é feia como seu nome, mas Valdo se apaixona pela moça mesmo assim. Só que ele é bonito e em toda sua família só há gente bonita. Como apresentar a feia Genoveva para seus familiares? Texto pitoresco de Rubem Fonseca. (4 estrelas) 06 Muchacha punk, de Rodolfo Enrique Fogwill, versão de 1979, extraída da internet. Rapaz argentino narra transa com bela garota punk numa gelada noite londrina em dezembro de 1978. Tudo começou numa pizzaria e prosseguiu na impressionante casa dos pais dela, muito longe de um sujo, malcheiroso e molambento reduto de punks, como ele imaginava antes. Curioso e envolvente o conto se parece com um ensaio sociológico ou antropológico, sem o ranço acadêmico. Especialistas elegeram-no em décimo segundo lugar entre os cem melhores contos publicados no século XX na Argentina. (5 estrelas) 07 Incompreensão, de Ana Miranda, in Noturnos, SP, Companhia das Letras, 1999. É um dos 65 minicontos que compõem o livro Noturnos e, como nos demais, uma figura feminina, num único parágrafo pouco maior do que uma página e utilizando apenas vírgulas como pontuação, fala de medos, desejos, delírios, embaraços etc. Aqui fala da incompreensão dos outros, por ser, como sua mãe era, uma mulher lúbrica, sensual. (3 estrelas) 08 Vivir en la salina, de Elvio Gandolfo, in La Reina de las Nieves, BA, Centro Editor de América Latina, 1982. Publicado em 1970, conto trata da vida difícil dos salineiros. No caso, trabalhadores de uma salina limitada pelo mar e por um deserto, onde havia muito pouco a se fazer senão cortar blocos de sal. História seca, desenvolvida num ambiente em que se cruzam violência e arbitrariedade patronal. Conto bastante apreciado pelos argentinos: ficou em décimo quarto lugar entre os cem melhores publicados no país no século XX. (4 estrelas) 09 Duelo antes da noite, de João Gilberto Noll, in Romances e Contos Reunidos, SP, Companhia das Letras, 1997. Um duelo de palavras e pensamentos entre um menino e uma menina. Eles não são irmãos, amigos ou vizinhos. Caminham numa estrada onde passam caminhões com soldados. As crianças se dirigem à cidade de Encantado onde a menina tomará um carro que a levará embora para sempre. Metaforicamente, é o mundo adulto representado no mundo infantil. (3 estrelas) 10 La fiesta ajena, de Liliana Hecker, in Los Bordes de lo Real, BA, Alfaguara, 1991. Rosaura, 9 anos, filha de doméstica é desaconselhada pela mãe a ir ao aniversário de Luciana, mesma idade, filha da patroa. Festa de ricos, diz a mãe, melhor que fique em casa. Rosaura insiste, acaba indo e está muito feliz. Mas logo uma menina rica questiona sua presença ali: ela então é obrigada a confessar que é filha da empregada. Depois a patroa lhe pede que sirva doces às convidadas. E ainda outra decepção virá no final. (3 estrelas) 11 O jardim das oliveiras, de Nélida Piñon, in O Calor das Coisas, RJ, Record, 1980. História (ditadura militar) e ficção (memórias inventadas) dão o tom a este conto em que um narrador angustiado faz confissões sobre seu passado de militante de esquerda. Não é um texto apenas político; a escrita da autora, cheia de metáforas, imagens e penduricalhos torna difícil crer que o narrador em questão seja um homem "rijo como um cabo de metal" se tem uma alma tão feminina como a que o conto deixa perceber. 12 Antieros, de Tunuma Mercado, in Canon de Alcoba, BA, n. 40, 1998. A crítica definiu os contos da autora como eróticos, mas este parece uma receita de cozinha. Só parece, porque o ingrediente principal dele é mesmo o corpo feminino. A narração se dá através da utilização de uma série de verbos no infinitivo sem um sujeito (uma mulher) que execute a ação. A autora parece dizer que a cozinha é o espaço da casa onde a mulher tem mais liberdade para revelar seu poder e exercer seu erotismo. A verificar... (3 estrelas) 13 Informe de um gago, de Sérgio Sant’Anna, in Romances e Contos Reunidos, SP, Companhia das Letras, 1997. Esmeralda, bela mulata e dançarina parte para a Alemanha e deixa o narrador sozinho. O gago quer nos informar a respeito desse fim de caso; ele acredita que mesmo lá na Europa, com seu alemão mas sem ele, Esmeralda sentirá frio e um oco por dentro. Tudo isso porque os gagos seriam grandes amantes, discretos, silenciosos, concentrados. E por aí vai... (3 estrelas). 14 La nena, de Ricardo Piglia, in Cuentos Crueles, BA, Espasa-Calpe, 1995. Afasia é um distúrbio de linguagem que afeta a capacidade de comunicação da pessoa. A afasia de Laura, a menina desse conto, é causada por problemas emocionais. Como forma de tratamento seu pai decide contar-lhe histórias curtas todos os dias, na verdade, uma mesma história com diversas variações. A história escolhida é a de Vênus e o anel. (3 estrelas) 15 Curare, de Olga Savary, in O Olhar Dourado do Abismo, RJ, Bertrand, 2001. Neste conto de apenas duas páginas a autora faz o elogio da brasilidade de seu homem, especialmente de seus atributos indígenas, seu sexo longo, o macho que sabe honrar sua fêmea etc. 16 Con el desayuno, de Juan José Saer, in Lugar, BA, Seix Barral, 2002. Goldstein tinha 21 anos em 1943 quando foi deportado para um campo de concentração por ser judeu, comunista e membro da Resistência. Sobreviveu porque era forte e trabalhava bastante, mão de obra barata para os nazistas. Passados quase sessenta anos vive em Buenos Aires e tem sua rotina diária contada em detalhes, especialmente seu desjejum, um verdadeiro ritual. Mas, é claro, o texto de Saer vai muito além disso. (3 estrelas) 17 Atualidades francesas, de Moacyr Scliar, in A Orelha de Van Gogh, SP, Companhia das Letras, 2000. Quando Tiago é preso pela ditadura, pai manda o filho mais novo para Paris, evitando que ele também seja preso. Os anos passam e Leo fica na França, ao contrário da maioria dos exilados brasileiros. Um dia, num concerto da Filarmônica, por acaso conhece uma brasileira. E então, tudo vai mudar. Final surpreendente. (5 estrelas) 18 Amsterdam, 79, de Matilde Sánchez, in La Canción de las Ciudades, BA, Seix Barral,1999. A narradora começa sua viagem pela capital da Holanda e como é inverno, ela pensa que se há uma cor para definir a cidade, o país, essa cor é o cinza. Vai escrevendo sobre tudo o que vê e sente e diz que para seu companheiro de viagem os holandeses são como os alemães que passaram uma longa temporada na Inglaterra. Suas impressões sobre o país e outras coisas mais prosseguem. E serão lembradas muitos anos mais tarde... (4 estrelas) 19 Conto de verão no.2: Bandeira branca, de Luis Fernando Veríssimo, in Histórias Brasileiras de Verão, RJ, Objetiva, 1999. Ela, Janice, ele, Píndaro. Pequeninos, se conheceram numa matinê de Carnaval, não brincavam, apenas faziam montinhos de confete e serpentina. Só se viam na época de Carnaval, sempre no mesmo clube. Muitos anos depois eles se encontraram novamente, num Carnaval, não no clube, mas num aeroporto. Muita coisa tinha mudado então... (3 estrelas) 20 Como vuelvo?, de Hebe Uhart, in Guiando la Hiedra, BA, Simurg, 1997. Este conto também apareceu numa antologia intitulada Historias de Mujeres Infieles e isso dá uma pista sobre o que ele versa. Professora de um vilarejo argentino e uns poucos alunos seus participam de um encontro de mestres e estudantes em outra cidade. Lá ela conhece um professor de ginástica bem mais jovem e algo que ela não sabe explicar acontece entre os dois. (3 estrelas). Lido entre 15 e 26/10/2018. Minha avaliação: 3,3.
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