"A ameaça do caos é um dos mais fortes elementos usados para justificar a linguagem. Como se sem o nome, as coisas ficassem dispersas, inexistentes, no sentido de não poderem ser utilizadas. A aceitação da lei da linguagem para ordenar o caos do real, instaurando assim a realidade, é uma das mais antigas e genéricas mitologias. É o caos, assim, que alicerça a lei, e a lei é antes de tudo linguagem. O nome e as leis da linguagem salvam "a coisa" de um todo amorfo, dando-lhe forma e função: ordenam e organizam o mundo dos homens. Temos de dizer já que, se isto é assim, este suposto caos fica situado em um limite sedutor: para além da lei, para onde está a mistura do elemento indiferenciado, onde está o todo." [extraído da quarta-capa] Por muito tempo a reflexão filosófica se constituiu no monopólio de um especialista: o filósofo; na medida em que esta reflexão foi essencial e radical, foi apropriada também pelo teólogo, sendo Deus o detentor da essência e da raiz. Hoje, este monopólio acabou. Esfacelou-se. Os profissionais de ciência humanas e sociais - do linguista ao historiador - e das ciências exatas - dos físicos aos matemáticos - conquistaram legitimidade para exercer esta reflexão essencial e radical. Jorge Veschi também. Com sua formação e experiência de psicanalista, e a ajuda da teoria da catástrofe, enfrenta o desafio, que molda a reflexão filosófica. Que desafio é este? ...o desafio de compreender, e se possível explicar, a tensão entre a múltipla experiência individual e a necessidade coletiva de unificá-la e organizar o seu sentido. Compreender a tensão entre a unidade e o fragmento. O equilíbrio e a turbulência, o conhecido e o ignorado, o caos e a ordem. E por que profissionais de saberes tão distintos se preocupam agora com a reflexão filosófica? Por motivos simples. Porque nos demos conta de que existem modelos, estratégias e interesses semelhantes nos diversos setores do conhecimento. Veschi mostra, por exemplo, como o interesse pela catástrofe é inerente aos interesses da ética, pelo bem e o mal; da estética, pelo belo e o feio; da economia, pela distribuição e apropriação. Mas seu foco principal é relacionar os conceitos básicos da teoria da catástrofe (acaso, fractal, atratores, turbulência, incerteza, caos) aos conceitos básicos da teoria da psicanálise (libido, pulsão, sexualidade, inconsciente). O que produz novos e criativos insights para o conhecer e a prática da psicanálise. Pode também, é verdade, produzir o caos. Mas e daí? Já não produziram antes? E o que aconteceu? Nada! Ou melhor, nada além do progresso dos saberes. Joaquim Falcão (extraído da orelha do livro)
