Claudinha no ano da loucura -

    Alexandros Evremidis

    Letras Brasileiras
    2007
    156 páginas
    5h 12m
    ISBN-13: 9788588844445
    Português Brasileiro

    Claudinha tem 11 anos de idade. Ao visitar a redação da revista em que sua mãe trabalha, chama a atenção de um jornalista bem mais velho. A partir deste encontro imprevisto, Alexandros Evremidis desenvolve um enredo recheado de sutilezas amorosas, discussões políticas e viagens alucinógenas. Resgate de um cult dos anos 80.

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    Elizabeth Pauletti02/11/2009Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Lolita Carioca dos Anos 80

    «Claudinha no ano da Loucura» (Alexandros Evremidis, Editora Letras Brasileiras) narra, na primeira pessoa, a história de um jornalista que se apaixona por uma adolescente. Para complicar ainda mais a história de Mavrô, some que, desde o princípio, sabemos que Claudinha é filha de uma das suas colegas da redacção, aquela que até então nem tinha prestado tanta atenção ou dirigido tantas palavras, e de quem se aproxima apenas para saber da menina, começando todo um romance através de bilhetes e cartinhas, onde a mãe vira uma espécie de pombo-correio entre ele e Claudinha, ainda sem imaginar os interesses do colega jornalista pela sua filha pré-adolescente. «Tarado! Pervertido! Pedófilo!», alguns devem dizer. Talvez uma das grandes oportunidades que um livro nos oferece é a de pensar sobre vários aspectos de uma mesma situação, independentemente de se concordar ou não com o autor, aliás, há grandes obras em que não concordamos com nenhuma ideia do autor, o que não faz com que aquele material deixe de ser uma grande obra. A primeira análise que faço é a seguinte: se sou eu a escrever minhas memórias de infância e adolescência, sobre homens maduros que me atraíam nessa altura - até seria verdade, me lembro muito bem de ter menos de 8 anos e me apaixonar por um homem com mais de 28, ou de, aos 14, por um outro com mais de 36, e inclusive de raramente, nessa altura, prestar atenção em qualquer garoto da minha idade - certamente que os dedos serão apontados - ou não serão - de forma diferente, talvez com menor agressividade na acusação, como se o amor tivesse idade, ou como se, consoante a faixa etária ou sua diferença, para um deles a definição atribuída é amor, para o outro, perversão. Claudinha, que logo foi considerada a “Lolita carioca”, não é vítima nessa história. Mas Mavrô, todavia, também não o é. Na verdade, em “Claudinha no ano da loucura”, ambos estão perdidos num mundo sem alicerces, sem previsões, sem expectativas concretas, como se fossem personagens de muitas histórias que ainda não ganharam fim. Ao ler o livro, é como se visse os dois sentados no chão da sala, num canto escuro, talvez esperando apenas que alguém lhes estenda a mão, lhes compreenda, lhes tome pelos braços e traga vida às suas vidas. E muitas vezes não é isso o que precisamos ou que faz toda a diferença no mundo caótico em que vivemos, de algo, apenas alguma coisa, que mude todo o cenário? Porque já fui adolescente e porque ainda hoje convivo com muitos deles na minha vida pessoal, vejo que ainda há muitas Claudinhas por aí, o que quer dizer que a história não me causou qualquer tipo de choque. Mais que isso, até posso dizer que, em determinada fase da vida, ou principalmente na adolescência, muitas mulheres um dia foram Claudinhas, eu certamente também fui, se bem com com mais juízo, risos. Chego até a pensar que a diferença entre a Claudinha e eu seja de que, no meu caso, e mesmo apesar da inocência e da ingenuidade dos actos puramente infantis, sabia exactamente o que queria, enquanto que a Claudinha parece não ter chão, não ter um objectivo claro ou definido, mesmo quando por vezes parece mais madura que a idade que tem. Basta estar no meio de algumas adolescentes para reconhecer as Claudinhas. E não é errado ser uma Claudinha, porque a adolescência é uma fase em que se busca por uma identidade, em que se quer deixar de ser um número, mais um filho que nasceu, e ser realmente alguém. Investir na conquista, no desejo de despertar o interesse do outro, e inclusive o gozo que se tem em reconhecê-lo, é algo muito característico nas adolescentes, e a única desvantagem é que não sabem o poder que pode ter a juventude, ou inclusive os desprazeres que pode proporcionar uma atitude inconsequente. Mavrô não é o adulto que poderá se gabar por ter conquistado uma adolescente, porque é ele que - por livre vontade - se torna conquistado por ela, e enrolado em suas peripécias e jogos de manipulação. Mesmo quando Mavrô tenta tomar as rédeas do jogo, vê-se que, na maior parte do tempo, é Claudinha que conduz toda a história dos dois, e o papel de Mavrô, se não dependesse da sua acção nos momentos de estímulo, até poderia ser considerado passivo. Não de vítima porque ele não era obrigado a ceder aos seus encantos, essa história da vitimização do homem vem desde os tempos de Adão e Eva, em que foram expulsos do Paraíso porque foi a Eva a oferecer a maçã, o que não quer dizer que Adão não poderia ter recusado. Passivo, é essa a definição para o comportamento do Mavrô, por vezes quase submisso aos caprichos da adolescente, que também não deixavam de ser os seus, que também não deixava de ser o que ele queria. Se fosse apenas a atracção pela adolescente (ninfofilia), se fosse apenas o desejo de fazer sexo com a adolescente, e se esta lhe cedesse facilmente, quando ele queria, e não quando ela lhe atiçava, através de todos os seus jogos, talvez a história não rendesse tantas páginas, e o encanto teria ido embora assim que atingido o intuito. O que Mavrô precisava não era de uma adolescente para fazer sexo, mas dessa rebeldia tão característica, de todos esses cenários reais ou imaginários, tão facilmente plantados na fértil e indefinida cabeça de uma adolescente confusa, de todos esses contornos que uma história vai ganhando, sem previsão do fim, sem hora marcada, sem rotina, com altos e baixos e surpresas em cada novo encontro, com expectativas que se antecipam antes de se prever se o que virá é o que se quer, o que não se quer, ou o que não se sabe, o que desde já inibe a preparação psicológica para as reacções, ou inclusive as confunde. Mas era vida, o que faltava na vida dos dois, e isso o que buscavam quando se refugiavam nos braços do outro ou mesmo nos encontros de ménage ou orgia, em que procuravam em grupo uma identidade individual. Mavrô se transforma num adolescente ao conhecer Claudinha, e durante algumas fases do livro me pergunto quem seria ali a criança, e aí está, até mais que nas cenas de sexo, o que há de mais forte no livro, o emocional, o psicológico, que vai moldando uma série de situações. A história passa a ser regada de sexo e drogas, e com o passar das páginas se nota uma compulsão, aquele tipo de compulsão que parece tapar todos os buracos do vazio que há em volta, o que, se analisarmos bem, não é muito diferente de muitas outras histórias, em que o sexo é utilizado mais como refúgio do que como encontro, em que os problemas ainda ali estão e o sexo não os solucionou, mas se faz sexo e se torna menos penoso conviver com eles.

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