Vida de xenxéns, composta de episódios miúdos, banais.
Conquanto desconhecida do grande público, Marcoré não é uma obra qualquer, o que já de início se vê, nesta edição específica, pela citação de excertos críticos feitos por nomes como Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e José Lins do Rego, e pelo posfácio escrito por ninguém menos que Antonio Houaiss (sim, aquele do dicionário). À obra, pois! === De aspecto inicialmente enfadonho, com o autor-protagonista dissertando em tom memorialista sobre os dramas entre os muitos personagens e a lenta e pacata rotina diária da pequena burguesia do lugarejo interiorano do estado progressista onde vive, o livro nos insere nas mudanças trazidas à vida de todos pela notícia de que sua mulher, após dez anos de um casamento infértil, está grávida. Centrada, desde então, na tão esperada vida do filho, a narrativa nos apresenta histórias de solidão, de trabalho, de casamentos, de famílias que se formam e se desfazem, da religiosidade local (no mais das vezes praticada mais por buniteza que por percisão), de rivalidades políticas, de intrigas amorosas, de doenças e de mortes... mas, principalmente, somos mergulhados na experiência do, ao final, frustrado amor paternal do protagonista por seu filho Marcoré (Marco Aurélio), amor este que, aparentemente, nunca conseguiu sentir de verdade por outras pessoas, nem mesmo sua mulher e sua mãe. E, por meio dessa "vida de xenxéns, composta de episódios miúdos, banais", e usando de uma linguagem precisa, enxuta, correta e sóbria, o autor nos apresenta o que enxerga como a triste condição humana: "a de nascer, crescer e morrer entre equívocos, incompreensões, buscas e sofrimentos, sem encontrar uma razão de ser", sobretudo para os medianos e medíocres a quem não coube o dom de a graça se revelar.

