Depois de quatro meses parados na leitura, usando todo o meu escasso tempo livre para escrever meu novo romance (infelizmente a realidade é triste assim: ou eu usava o tempo livre para ler, ou usava para escrever), não é que deu tempo de ler um último livro antes de o ano acabar e as férias começarem?
E o escolhido para finalizar 2022 foi essa maravilha do amigo Ulysses Rubin Lüersen: "O Filme Nosso de Cada Dia". Nessa obra, o autor discorre, em setenta mini capítulos, sobre diversos filmes que marcaram a sua vida e, de uma forma ou outra, ajudaram a moldar sseu gosto cinematográfico, e até mesmo sua personalidade, seu caráter.
O grande lance do livro é que Ulysses fica longe da formalidade por vezes maçante das resenhas "acadêmicas". Seus comentários são os de um cara comum que é tremendamente apaixonado por cinema. É papo de mesa de bar, no melhor sentido possível da expressão. Bom, "comum" também não dá para dizer, porque Ulysses é de uma inteligência ímpar, com uma sensibilidade aguçada para perceber, nos filmes, nuances e simbolismos que muitas vezes não são tão aparentes assim.
Há de tudo na obra: filmes clássicos, filmes nacionais, filmes "B", filmes europeus, filmes campeões de bilheteria... É especialmente legal a forma como o autor defende com paixão - e com argumentos contundentes - diretores que, muitas vezes, são desmerecidos, acusados de fazerem apenas "cinema pipoca", como Spielberg e James Cameron, por exemplo.
Não há um único capítulo no livro que não seja imperdível, mas vou destacar aqui três que gostei muito: o maravilhoso capítulo sobre o incompreendido "Showgirls", de Paul Verhoeven (que compartilhei no Facebook há um tempo), a análise de "Clube da Luta", que me fez pensar o filme sobre um ângulo que nunca havia visto, deixando para trás as bacanas frases de efeito reproduzidas à exaustão em redes sociais, e o capítulo sobre "Titanic", um clássico que muitas vezes é desmerecido por razões totalmente equivocadas.