Boêmios Errantes -

    John Steinbeck

    Editora Opera Mundi
    1973
    231 páginas
    7h 42m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

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    Matheus Petris23/01/2023Resenhou um livro
    3 (Bom)

    Tortilla Flat é o título original deste romance coletivo. Apesar da tradução ser interessante, Boêmios Errantes não capta o principal deste livro: a origem, o meio em que as personagens estão inseridas; que elas são boêmias & errantes, isto é inegável, mas se elas estão afundadas, estão nas lamas de Tortilla Flat. São dali e de nenhum outro lugar. É possível traçar um paralelo com O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Assim como Azevedo, Steinbeck constrói seus personagens em torno de uma estrela central. Tudo gira em torno do Cortiço e da Tortilla Flat. Se Azevedo tece a “serpente de pedra e cal” por meio de descrições espaciais muito minuciosas, John Steinbeck nos insere em Tortilla Flat muito mais pelos olhos de seus personagens, por meio de diálogos. Em ambos, há uma miríade de personagens fadados ao sofrimento. Seriam intrinsecamente fracassados ou afundados por seu meio? A asserção de Rousseau estaria comprovada por essas narrativas? Sim e não. Enquanto em O Cortiço existe uma estrutura cíclica, uma continuidade geracional de personagens, onde tudo se repete — o que comprovaria a tese rousseauniana e, num certo sentido, as motivações naturalistas —, em Boêmios Errantes há uma suspensão, as personagens voltam para seus começos, para suas origens. Não há modificações profundas, apenas temporárias. Enquanto O Cortiço cresce, se multiplica, Tortilla Flat se mantém intacta. Em ambos os romances há um personagem mendicante que guarda todas as suas esmolas ao longo da vida. Os destinos deles são diferentes: um é roubado e perde tudo, o outro cumpre sua promessa e ganha amigos. É claro que no segundo caso falamos de Steinbeck, pois neste romance há uma chama de esperança. Por mais que as personagens estejam afundadas na lama e cometam algumas atrocidades, elas ainda mantêm suas bondades particulares, seu senso de coletivo. Steinbeck, por mais irônico que seja ao longo do seu livro, ao comparar os amigos com os Cavaleiros da Távola Redonda, acerta no ponto crucial: na igualdade dos membros daquela casa. A única diferença: Danny dorme em uma cama. Ele abdicou de todo o resto em prol da união. O fim deste personagem e de seus amigos só comprova o senso de coletivo e, principalmente, as motivações sociais que impregnam as entranhas destes e mantém suas condições intactas. Entretanto, eles não foram corrompidos por seu meio. Mesmo em meio a lama, eles continuam se limpando. Juntos. A coletividade e a esperança não morrem, apenas adormecem.

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