Para conhecer a reflexão voltairiana
Essa obra é constituída por várias pérolas. Na maior parte, os capítulos são curtos - praticamente "pílulas de reflexão", por assim dizer. A "ignorância" aqui não é apenas constatada, mas apregoada por Voltaire: é uma postura adotada diante dos grandes e importantes problemas metafísicos dos quais se ocupa o homem. Mas isso não significa que o autor se rende a um ceticismo radical: Voltaire crê, humilde e respeitosamente, num Ser Supremo, bem como na existência de um traço de moralidade (aqui caracterizada pelo justo e o injusto) que ultrapassa as fronteiras das nações. Cita, em reforço a isso, o valor conferido à manutenção das promessas, o horror ao homicídio e o respeito devido aos pais. Não se nega a enfrentar temas espinhosos, como o canibalismo (presente nos relatos de viagem) e a filosofia hobbesiana (que teria confundido direito e poder). E no decorrer do o texto, a ironia voltairiana não poderia deixar de se fazer presente. Aqui e ali, na apreciação das mais diversas correntes de pensamento, o autor não decepciona aqueles já acostumados com o seu estilo elegante e, por vezes mordaz. É um texto acessível, agradável e que pode ser degustado aos poucos. Um ótimo (e instrutivo) livro.

