Os quadrinhos do Frank, de autoria do Jim Woodring, certamente estão entre as obras mais densas de fascínio, significado, complexidade e simbologia que já tive o prazer de conhecer, do tipo que desperta risadas e nojo, ferve o cérebro sem dó, desnorteia e satisfaz.
São histórias surreais, sem palavras, ambientadas numa terra em que a natureza tem suas próprias leis e criaturas bizarras. A arquitetura é alienígena e o ambiente às vezes parece mudar de um quadro para outro como num sonho, mas os flagelos recorrentes impostos aos personagens dizem mais de um pesadelo. Numa história vemos quanto vale a verdadeira amizade, noutra passamos pelo aperto de ver alguém chafurdando após más decisões, e em outra apenas há um vislumbre de amadurecimento e amor-próprio. Freud que iria adorar interpretar esses sonhos.
Frank, protagonista da maioria das histórias, é um gato/castor antropomórfico, inocente e juvenil, que sempre passa por maus bocados devido à sua própria ignorância e nunca aprende com os próprios erros. Outro personagem importante é Manhog, um porco com feições humanas e apetite imenso, que vive no ostracismo e se refestela na imundície como resultado de ações horrendas que cometeu. O mal supremo é refletido em Whim, o político sempre sorridente que escraviza todos os outros e que persiste dispersando suas sementes. Para os amantes dos animais há Pupshaw e Pushpaw o casal amoroso de pets fiéis e onipotentes.
Nos céus há Jivas em abundância, objetos que parecem piões flutuantes, mas que também mostram senciência e empatia. Gosto de pensar que eles representam consciências ou aspectos de sonhadores mais além, de outras camadas. Outras muitas criaturas são multioculares e assustadoras e, junto com rasgos no tecido da “realidade”, aludem tanto a um funcionamento obscuro e fundamental da natureza quanto a uma palpabilidade fugaz; epifanias são raras e enganos são comuns.