Viagem à Calábria conta a história de um personagem em busca de suas origens. Na verdade, mais do que isso, a ida até a Itália e o reencontro com o irmão representam a resposta que enfim pode lhe trazer paz: por que, logo após o golpe de 64, seu irmão, Zuiudo, teria revelado à polícia o local em que ele e o pai se escondiam? Os irmãos passeiam pela região da Calábria em meio a diversas lembranças. As cenas de sua infância em Uberlândia voltam à cabeça como flashes. Em instantes, o protagonista se transporta para sua meninice no cerrado, onde, aos 11 anos, via as dificuldades e a tristeza do pai – caixeiro-viajante que ensaia Antígona com a trupe de teatro que criara com seus oito filhos – por não ter dinheiro para retornar à Itália, sua terra natal. Relembra também os passos da revolta do povo, cansado das ameaças contra a greve e das mentiras que envolviam a morte de Nego Juvêncio. Mergulha com o Zuiudo nas recordações, tentando descobrir o que realmente aconteceu no passado: a crítica em público do pai à ação policial, a emboscada que provocou a fuga para Brasília e o dia de sua captura. Em linguagem direta e comovente, Viagem à Calábria nos fala das mudanças que vieram com a construção de Brasília, a nova capital, e dos novos rumos do cerrado. E fala também das mudanças emocionais desse protagonista, da raiva, que, transformada em arrependimento, o torna capaz de restabelecer sua relação com o irmão, e dar sentido à sua história.
Viagem à Calábria -
Sérgio Capparelli
Edições (1)
Ver maisJornada rumo à infância
Uma viagem na idade madura se assemelha a um regresso à infância. Ao menos da forma como essa jornada é narrada em Viagem à Calábria, novo romance de Sérgio Capparelli. O livro marca o retorno do escritor à prosa para adultos 20 anos após Gaspar e a Linha Dnieperpetrovski. Nessas duas décadas, o autor se concentrou na literatura para jovens, da qual é um dos principais nomes do Brasil, e à poesia. Além do romance, ele ainda tem outros dois livros a caminho – O Rapaz do Metrô: Poemas para Jovens em 8 Chacinas ou Capítulos (Record) e a coletânea de poesias Os Cavalos de Einstein (L&PM). Viagem à Calábria acompanha as andanças pela região italiana de um personagem que empresta de Capparelli alguns elementos autobiográficos: a idade, o fato de ter passado a infância em Minas Gerais e mesmo o sobrenome italiano – que tem origem em albaneses que migraram para a Calábria. No livro, ele viaja em busca de seu irmão, radicado no país, para retomar um contato interrompido meio século antes e tirar a limpo uma dúvida que corrói o personagem: teria o irmão traído o pai – um ex-seminarista sonhador perseguido pela ditadura militar? O livro se estrutura como em um jogo de espelhos, no qual o número dois assume fundamental importância na composição especular do romance. O protagonista viaja na companhia do irmão não apenas pela Itália, mas pela memória de sua vida no Brasil. Sob vários pretextos, logo o seu pensamento se desgarra em direção à infância em Uberlândia, no fim dos anos 1950, na qual a dualidade está sempre presente: o bairro em que o menino vive é separado por um córrego de uma aldeia de caboclos que vivem nas ruínas de uma igreja; o garoto divide seu afeto entre a mãe, uma mulher frustrada pelo temperamento pouco prático e sonhador do marido, e Dona Sílvia, uma vizinha aparentemente abandonada pelo marido desaparecido – na verdade, um perseguido político fugindo do truculento delegado local. Quando o golpe militar se instaura, a duplicidade engolfa também o pai do protagonista, que precisa ele próprio se esconder, caçado pelo delegado local. É o desfecho dramático dessa caçada que coloca no personagem principal a dúvida a ser solucionada meio século depois, na viagem com o irmão. Outra jornada especular, dado que, quanto mais ambos avançam pela Itália, mais vigorosamente a narrativa se concentra na infância de tons fellinianos e agridoces vivida no Brasil.
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