“A literatura é um modo de estar na vida”, vida no horizonte da escrita: vida literária; gesto inteiramente coreográfico – “corpo-desassossego” que fere o ponto zero do papel rompendo o branco indomável; movimento que se esgarça ao mais profundo do movimento; viagem em contínuo recomeço, todavia, sempre outra, na qual o ato de escrever torna-se uma intensa selvageria: luta corporal pela palavra. Escrever é sempre uma relação dessa ordem: corpórea, mas o corpo na escrita nada tem a ver com o sujeito. A literatura é com uma matilha de cérberos decepados migrando para o desconhecido, edificando paisagens não orgânicas, imagens-textos, escritas que não se deixam nomear. A literatura, a cada vez, fabrica a sua própria experiência de corpo, algo que nunca será cadáver, pois é pura imanência, força ativa, mas sobremaneira imperceptível, totalmente fora dos dispositivos de nomeação; linguagem fugidia, corpo liso, experiência nômade da escrita; experiência que alçamos nesta edição da Polichinello na qual trazemos tatuada, no dorso das nossas páginas, a imagem da Besta Inominável. Figura instigante que, da enseada do espaço literário, arrota devotamente no ar rústico. Assim diz o poema de René Char, que nos chama atenção, não pela sua performance imagética, mas por sua intensidade ontológica, movimento interior, notável acontecimento: o bafo fétido que escapa ao ventre da Besta, rompe o ar pesado do estabelecido criando uma fissura, sensível abertura no horizonte do pensamento. É por essa fenda que se dá – na Polichinello – o encontro entre Maurice Blanchot e René Char, cujo duplo movimento é um encontro de forças, que acontece sempre pelo meio, entre as coisas, tal como o arquipélago e o mar: movimento variável, aberto aos ventos indeterminados. Todavia, Blanchot, nas teias da Besta Inominável, incorre em sua própria errância, navegando em questões do tipo: De onde vem a palavra? No interior do texto, quem fala? A partir daí, numa volta incessante, traça um passeio pela superfície da palavra começante, isto é, da palavra que sempre começa e, com isso, evidencia que na literatura a palavra é a potência que sempre retorna, mas não à origem, ao inacabamento [o eterno retorno], ponto no qual cintila a estranheza de toda singularidade: escrever é sempre um recomeço. Nessa esfera – com Blanchot e René Char – engendramos uma pluralidade de encontros, o Círculo da Besta, o que faz de nossa aposta um agenciamento coletivo, zona de experimentações onde o pensamento incide em profusão: sempre ao aberto, sempre em fuga. E assim seguimos adiante. Nessa trajetória experimentamos todos os estranhamentos, entusiasmos e acidentes que um investimento dessa natureza pode alcançar. Seguimos e seguimos, fazendo da viagem a motivação essencial da partida. A palavra - de discorde - que se impõe nessa jornada é essa: que seja excluída qualquer alusão a um fim ou a um destino!
Revista Polichinello n.º 11 - a besta inominável
Nilson Oliveira (editor)
Lumme Editor
2009
92 páginas
3h 4m
ISBN-1: 0
Português Brasileiro
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