Encontrando-me é o terceiro livro da Cora Carmack a abordar os amores e aventuras de três jovens amigos. No primeiro, Perdendo-me, conhecemos Bliss e Garrick; no segundo, Fingindo, conhecemos Cade e Max; e agora acompanhamos Kelsey e Hunt em uma viagem pela Europa onde tentam descobrir quem são e para onde vão.
Kelsey Summers não sabe o que fazer agora que a faculdade acabou. Por isso, embarca em um mochilão pela Europa, em busca de algo que lhe diga o que fazer. Voltar para a casa dos pais não é uma opção, já que seu relacionamento é tão conturbado. Mas a viagem não está realmente entregando o que ela quer. Até que conhece Hunt.
Um homem misterioso e lindo, que parece imune aos encantos de Kelsey. Ele rapidamente passa a ocupar todos os seus pensamentos e, quando ela achava que estava prestes a desistir de sua aventura, Hunt a convence e os dois partem juntos em busca de propósito.
Já faz uns bons 6 anos que li Perdendo-me, mas a minha lembrança era de um romance divertido e gostosinho. Por isso, a Cora comumente figura minha lista de autora de romance saudáveis. Mas é uma revisão que farei a partir de agora.
Eu tinha esperanças de gostar muito de Encontrando-me, estava certa de que seria uma leitura leve e rápida e fácil. Mas meu deus, como eu estava enganada. Os primeiros 25% até foram assim, mas logo que ela decidiu falar como a Kelsey se sentia perdida e sem lugar no mundo, enquanto refletia sobre um memorial do Holocausto, eu soube que ia ter problemas.
Quanto mais a leitura avança, mais notável ficam os temas principais da leitura: os traumas de Hunt e Kelsey. Cora Carmack escolhe abordar alcoolismo, transtorno pós-traumático e abuso sexual no passado das personagens, mas faz isso de uma forma tão terrível que me senti mal lendo.
O abuso sexual é romantizado como um passado sofrido, feito para fragilizar Kelsey e permitir que ela seja salva por Hunt - que tem um claro complexo de herói. Algumas cenas me lembraram produções audiovisuais que tentam transformar o abuso sexual em algo bonito e me incomodou muito.
Sem falar como o fim da a entender que ao compartilhar sobre o abuso que sofreu com Hunt e Bliss, e ser acolhida por ambos, Kelsey é capaz de superar seu passado e seguir em frente. É importante reforçar que ser acolhida pelas pessoas que você ama, ter seu trauma validado e sua verdade respeitada, é essencial. Mas é apenas o começo da jornada de cura. Cora Carmack faz parecer que isso é tudo que ela precisava.
Também tem a forma como o alcoolismo e o transtorno pós-traumático foram tratados. O alcoolismo foi abordado como algo que você pode superar com força de vontade. Que um alcoólatra tem o poder de beber álcool e seguir o dia normalmente apenas porque ele quer, sem precisar falar com o padrinho ou ir a reuniões do AA ou sequer ter uma nova recaida. Na história, Hunt tem mais autocontrole sobre seu vício/doença do que sobre seus desejos por Kelsey!
Junto disso temos o transtorno pós-traumático, que é tratado como algo que Hunt já superou. Ele sempre fala como se isso estivesse no passado, nenhum gatilho é mencionado ao longo da história, nada. Porém ele não dorme e ataca Kelsey uma noite enquanto dormem. Esses não são sintomas de pessoas que superaram TPT. Além disso, os traumas de Hunt não foram realmente desenvolvidos ou propriamente abordados. O máximo que temos é uma explicação de onde eles surgiram.
Enfim, tudo isso misturando, mais a lentidão com a qual a segunda parte do livro passou, fez com que eu me decepcionasse demais com Encontrando-me. O livro não tem uma narrativa ruim, não foi mal escrito e os personagens até poderiam ser legais, se a Cora tivesse excluído o trauma da história ou os abordado da maneira correta.
Não é um livro que me sinto confortável em recomendar devido as mensagens de que é possível superar e lidar com trauma apenas com força de vontade - e sem nem mencionar o termo terapia! Então, caso for ler, é por sua própria conta e risco.