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    Marafa -

    Marques Rebelo

    José Olympio Editora
    2012
    251 páginas
    8h 22m
    ISBN-13: 9788503010115
    Português Brasileiro
    4
    24 avaliações
    Leram37Lendo2Querem20Relendo0Abandonos0Resenhas5
    Favoritos3Desejados20Avaliaram24

    Em Marafa, romance escrito por Marques Rebelo, os leitores poderão retratados o povo e o dia a dia de uma cidade ainda provinciana, recém-industrializada - o Rio de Janeiro na primeira metade do século XX. O Carnaval, a boemia, as malandragens, as brigas, os bate-bocas e todo o linguajar característico são reproduzidos aqui pelo carioca, com muito humor.

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    Resenhas (5)Ver mais
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    Marcelo Gabriel Delfino17/05/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Fui mais um dos traumatizados com aulas de literatura chatíssimas, incompreensíveis e que não levavam a lugar algum. A consequência é que hoje, mesmo tendo lido um pouco dos clássicos da literatura brasileira, raramente encosto em um autor nacional e costumo considerar perda de tempo — não quero criticar maus professores, quando sei que o problema é muito maior do que isso, mas eu realmente não tive muita sorte. Quando o faço, costumo procurar aqueles que não apareciam naquelas coletâneas horríveis que classificavam os autores como se fossem espécies e dissecavam seus textos sem a menor piedade. Marques Rebelo era uma espécie de modernista não muito convicto, que oscilou entre a admiração pelos clássicos e os contemporâneos, a ponto de termos que procurar com atenção as características modernas (ao menos nesse livro). Sendo assim, o livro é uma leitura bastante agradável e não quero ficar recorrendo a rótulos que buscam situar o autor dentro de escolas, porque o que me interessa é sua capacidade de compreensão da realidade e como consegue nos tornar capazes de também apreendê-la. O livro descreve as figuras outsiders do Rio de Janeiro dos anos 30. Vemos o malandro, aproveitando de todas as pessoas ao redor para viver sem esforço; o sujeito politizado/ revolucionário que se torna um mero burocrata, por medo de buscar o mundo que idealiza e perder os confortos de que goza; a mocinha apaixonada e ingênua, de história sofrida e que sonha com o amor; a amiga namoradeira, experiente e que forma uma amizade muito forte (aqui um detalhe: ao contrapor as duas garotas, podemos notar o grande ego da amiga que não perde uma oportunidade de mostrar a “realidade” da vida para a outra e, assim, usá-la para se afirmar); o rapaz que sonha em se casar e dar uma vida digna para a namorada; as prostitutas, sempre céticas em relação à humanidade, por presenciar o que de pior ela produz e não perdendo uma oportunidade de se aproveitar de seus deslizes e falhas. Enfim, o livro é um grande painel dessas figuras que existem e não tem poder de alterar os movimentos da história, mas sofrem com seus sobressaltos. Sobre o livro, Ruy Castro comenta que a cidade do Rio, como aparece aqui, é composta por uma série de províncias, onde cada uma gera um tipo de pessoa e sociabilidade bem característicos. Assim, a cidade cosmopolita seria composta de pequenos territórios que os personagens raramente cruzariam as fronteiras. Isso me parece ainda mais verdadeiro hoje em dia, com as características tendo sido desenvolvidas ao ponto de termos grupos rivalizando pelo controle das regiões. A criminalidade que aparece no livro estava prenhe da cidade que todos conhecemos hoje e que costuma aparecer no noticiário mais pela violência do que por qualquer outra razão. É um grande acerto de Marques Rebelo, conseguir visualizar essas figuras todas praticamente enclausuradas em suas regiões e não se deslocando. Há muita sociologia nessas descrições, embora poucas explicações. No entanto, se posso falar em um defeito desse tipo de literatura, não conseguimos encontrar nada que soe a uma ruptura dessa situação. Compreendo que os personagens sejam vítimas de suas circunstâncias, mas não há sequer um deles capaz de refletir verdadeiramente sobre ela e a modificar. Inclusive o Baltazar, muito capaz de pensar sobre política, mas que vai se acomodando com a vida que tem e não vê meios de modificar nada, nem mesmo uma almofada em sua vida. Essa visão fatalista, me desculpe, acaba sendo a do autor e a de nossa literatura em geral, que é muito cuidadosa em reconhecer as condições materiais de existências e como elas geram comportamentos e visões de mundo, mas que não conseguem escapar disso, não conseguem transcender essa visão, digamos, materialista da vida. Sinto falta de um personagem com aspirações mais complexas, que buscasse compreender ao menos um tiquinho da vida, que não se visse condenado a repetir o mesmo caminho de todos os outros, mesmo que existam algumas pequenas diferenças (uns viram médicos, outros malandros, outros lutadores de boxe, mas todos estão condenados a viver meramente reagindo aos eventos). Não existem personagens que cresçam, que tenham as personalidades desenvolvidas e transcendam o mero imediatismo de ter que tocar a vida — mesmo os vencedores, na literatura brasileira, estão sempre preocupados em reagir à vida, alcançando melhores condições materiais, jamais vão além disso. Veja o caso de José, o rapaz que aparece no livro sem ambições e procurando apenas encontrar novas garotas para romances fúteis. Quando ele conhece Sussuca, muda totalmente sua maneira de lidar com as coisas, procura um trabalho melhor, que lhe permita casar, construir um patrimônio para sustentar a família, abandona as aventuras com outras mulheres. Mas ele não vai além disso. A vida é meramente existir, da melhor maneira que as circunstâncias permitirem, mas não há um amadurecimento sobre o que se passou, a incorporação dos eventos na história de vida, sejam eles positivos, de vitórias ou de aprendizados, nas derrotas. Podemos dizer que o que eles sabem no início do livro é tudo que saberão ao final. Mesmo os malandros, tão inventivos, só pensam nos golpes que podem dar e nada mais. Uma população tão controlada, mesmo territorialmente, como dissemos, jamais será capaz de modificar essa mesma situação social que a escraviza. Essa é a tragédia brasileira, enfim. A incapacidade de aprender com a vida, de crescer e se tornar um ser humano mais completo, complexo e capaz de lidar melhor com as dificuldades que aparecem. O livro ilustra, a contragosto, assim como toda a literatura brasileira, afinal, essa nossa característica tão limitante. Será possível que não existam pessoas como essas em nosso país? Muito difícil dizer que não existam algumas. Mas elas não aparecem na literatura. Por quê? Nossas classes pensantes ainda não conseguiram descobrir nada mais do que isso?

    5 curtidas

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    Avaliações

    4 / 24
    • 5 estrelas29%
    • 4 estrelas42%
    • 3 estrelas25%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas4%
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    Marques Rebelo

    Nasceu na Rua Luís Barbosa, nº 42, bairro de Vila Isabel, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, de onde aos quatro anos, por motivos de saúde familiar, muda-se para Barbacena, Minas Gerais, onde seu pai funda uma fábrica de especialidades farmacêuticas (não sem antes passarem por Ilhéus e Sítio), e ali permanece com a família até 1918 ou 1919, data em que a Gripe Espanhola parece ali também grassar entre seus parentes e familiares, qual sugere a sua obra literária, de inspiração autobiográfica. Seu pai era o químico, empresário e professor Manuel Dias da Cruz Neto, neto do segundo Barão da Saúde (renomado e rico comerciante de madeiras, por D. Pedro II agraciado a um ano da Proclamação), fundador da Quimioterápica Brasileira Limitada e professor da Escola de Farmácia do O'Grambery (Juiz de Fora) e da Escola de Agronomia do Estado do Rio (Niterói), e sua mãe, dona Rosa Reis Dias da Cruz, da família Rebelo Reis, proprietária de fazendas e caieiras em Cantagalo e Magé. A contar cinco anos, por ligeiras instruções familiares, aprende a ler a sós com a revista O Tico Tico, da qual rapidamente passa à Gazeta de Notícias, pela qual, segundo conta, faz-se em seguida formado em assuntos da Grande Guerra. O aprendizado das primeiras letras, completou-o à escola de dona Rosinha Ede (retratada no conto "História", de Oscarina), onde lhe desperta o voraz hábito de leitura o romântico Coração, de Edmundo de Amicis — primeira obra lida e que o marcará como escritor. Vocacionado e influenciado pelo pai, é de sua estadia em Minas Gerais, sobretudo entre os 9 e 11 anos, a leitura e absorção da Bíblia e de bastantes obras literárias, no mais francesas, nórdicas, portuguesas e brasileiras, entre as quais as de Anatole France, Honoré de Balzac, Selma Lagerlöf, Andersen, Luís Vaz de Camões, Camilo Castelo Branco e Olavo Bilac. De volta ao Rio, agora instalado em Copacabana (onde trava amizade com Augusto Frederico Schmidt), é provável tenha cursado o antigo ensino secundário no Colégio Andrews (c. 1918-1923), submetendo-se a preparatórios examinados em 1924 e 1925, no Colégio Pedro II. Aos quinze anos (1922), porém — descobertos Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis —, fora levado pelo pai a ter um triênio de aulas com o gramático e filólogo Mário Barreto (retratado em "Depoimento Simples", de Oscarina), filho do também filólogo Fausto Barreto (este, autor de Antologia Nacional, junto de Carlos de Laet) e que lhe ensinou latim, submeteu-o a rigorosas redações semanais (com temas estipulados) e lhe apresentou a clássicos portugueses, estudos que lhe incutiram, ou reforçaram, profundo desvelo pela língua portuguesa e que concorreram para a eficiência e fluidez de sua prosa. Rebelo chega a cursar três anos de Medicina pelos fins da década de 1920, abandonando-o no entanto, para, dedicando-se intensamente à vida de escritor, trabalhar no comércio (Cia. Nestlé) e, mais tarde, no jornalismo (1951), havendo bacharelado-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1937 pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ) e a diplomar-se, em 1945, pelo Curso de Extensão Universitária de Literatura Norte-Americana, do Instituto Brasil-Estados Unidos e Universidade do Brasil, com tese sobre o escritor norte-americano Bret Harte. Casado de 1933 a 1939 ou 1940 com dona Alice Dora de Miranda França (de quem teve os filhos José Maria Dias da Cruz, renomado artista plástico, e Maria Cecília Dias da Cruz, uniu-se em 1940 ou 1941 com Elza Proença († 1998), que lhe foi secretária até ao fim da vida.

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    Rio de Janeiro, Brasil

    Marques Rebelo