re tratos de um poeta que conversa
O primeiro trato é com o leitor. Daí, nasce o "re trato" do poeta Ricardo Escudeiro. Seu primeiro livro de poemas, lançado pela Patuá em 2014 e que leva o nome de "tempo espaço re tratos", faz o leitor se questionar enquanto leitor, a produzir sua própria poesia sensorial na medida em que lê, no livro, poemas como "um lado do anonimato", metalínguisticos ou lítero-provocativos. Há muito mais neste livro. Um dos poemas mais bonitos está logo no começo. "Não façam chacota das rosas" é seu nome: "o tempo não bastou de flores ele é de flores menosprezadas cercadas por grades não é permitida a entrada no sub bosque ah cruéis jardineiros letais não duvide da rosa ela há de não respeitar grades placas de aviso entradas bloqueadas que ela pode até ao último talo de embargo espalhá-las salve àqueles que acolhendo uma estão plantando outras várias" Mesmo aqui, temos uma variante de poesia que se remete a si mesma. Desde Mallarmé, palavras como "flor" e "rosa" conotam a palavra poética. Mas pode ser que essas rosas não sejam "flores do mal", isto é, baudelairianas, mas sejam, simplesmente, rosas prescritas. Um lindo poema sintético do livro é "fractal": "no infinal apocalip se catar se em cada estrela implodida que disse ao fatal meu lado qual" poemas sociais de fina ironia, como "samuel", também estão no livro de Ricardo Escudeiro. Lindo é o poema "os chefe pira": "vou tirar uma licença poética volto depois da liberação métrica daqui uns dois ou três versos e no mínimo uma rima". Alguns dos poemas são desabridamente anticapitalistas, questionam o nosso modo de viver e consumir. Outros falam de amor sem pieguice. O livro "tempo espaço re tratos", nome de um dos poemas, traz poesia em doses fortes para quem a apreciar e participar dela. Afinal, Ricardo é um poeta que conversa com o leitor. É só pagar pra ler!
