A Idade do Serrote -

    Murilo Mendes

    Cosac Naify
    2014
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9788540507838
    Português Brasileiro

    Publicado em 1968, resgata sua infância e adolescência, vividas em Juiz de Fora (MG). O posfácio é assinado por Cleusa Rios Passos, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. Há também uma crônica de Carlos Drummond de Andrade sobre o livro publicada no jornal Correio da Manhã, em 1968, e uma carta-resposta de Murilo – ambas inéditas em livro.

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    Rose Marques30/03/2011Resenhou um livro
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    A infância revisitada

    “A infância vem da eternidade.”(Janela do Caos) A idade do serrote, livro de memórias da infância de Murilo Mendes, foi publicado em 1968, já na maturidade do poeta. Mineiro de Juiz Fora, Murilo Mendes despontou no Modernismo brasileiro com a publicação de Poemas, em 1930. Ultrapassando, ao longo de sua obra, a estética de vanguarda que caracterizou as primeiras produções, Murilo desenvolveu uma poética própria, singular, marcada pela linguagem de ressonâncias surrealistas, pelo erotismo espiritualizado (ou espiritualismo erotizado) e pela preocupação com questões transcendentais. Em seu livro de memórias, Murilo Mendes narra o surgimento, não apenas da poesia, mas, sobretudo, da disposição poética do menino Murilo. A brincadeira com as palavras, o amor pelas letras, o gosto pelo humor e pela contação de histórias, as precoces questões espirituais e os primeiros contatos com a carne, o fascínio pela figura feminina – constituem ingredientes que preparavam, já na infância, a formação de uma identidade poética. As experiências vividas são narradas no domínio do poético, do maravilhoso, do mítico, denunciando, de um lado, a transfiguração literária do real, e, de outro, a apreensão (ou compreensão) poética no momento mesmo da experiência, na tentativa de “extrair o maravilhoso do imediato”: Movido por um instinto profundo, sempre procurei sacralizar o cotidiano, desbanalizar a vida real, criar uma dimensão do feérico. A partir desta atitude eminentemente poética, dá-se a narração das cenas da infância inundada de poesia. A prosa poética, deliciosamente elaborada e guardando, ainda, a espontaneidade, conquista pela beleza e pela originalidade das imagens. O tom coloquial, o sabor da fala mineira, as invenções lingüísticas, as expressões espirituosas e inusitadas, criam uma familiaridade ao mesmo tempo em que proporcionam uma experiência estética única. A narrativa não segue a ordem cronológica na apresentação dos acontecimentos passados A infância é revelada através dos personagens que dão vida à representação poética de um tempo e de um espaço singulares. Os capítulos são, deste modo, pequenas crônicas poéticas dando a conhecer as principais figuras da meninice de Murilo, que associa a cada uma delas uma iluminação fundamental. Cada personagem introduz na vida do poeta uma questão transcendental, contribuindo para a formação de seu espírito e de seu universo poético. Isidoro da Flauta e a música; Sebastiana e as histórias de dormir; Amanajós e a primeira idéia do demônio; Dona Coló, encarnação da chatice (“Deus amará os chatos?”); o poeta Belmiro Braga e as primeiras experiências poéticas; o padre Júlio Maria e a concepção viril da religião e de Deus; a namorada Cláudia, as outras namoradas, as mulheres; o primo Nélson e a descoberta de Tolstoi; tio Chicó, o doido, e tio Lucas, o santo; o folclorista Lindolfo Gomes; a lagartixa e a lição de bom gosto e indiferença; o professor de literatura francesa, Almeida de Queirós, e o professor Aguiar, de filosofia; o Pai. O desfile de personagens surpreende, encanta, emociona. O tempo e o espaço da infância são poeticamente recuperados através da história das pessoas que ajudaram a construí-los. Os personagens, transformados em mitos eternizam-se e acabam por transformar a própria infância do poeta em eternidade. Se de um lado, a geração dos mitos situa-se na base da formação da poesia, por outro, é a realidade concretamente humana das personagens que interessa ao poeta: Nada a fazer: assim sou eu, ponho sempre em primeiro plano o homem e a mulher. Criam-se os mitos, humaniza-se o poeta. “O olho precoce”, capítulo que encerra o livro, resume a sua humanidade – as colagens experimentais, o fascínio pelo mundo visível e pelo invisível, o interesse pela mulher, o universo reduzido a metáfora (“uma flor desde o início era para mim uma flor e mais que uma flor”), o real e o mítico, Deus: Assim o universo em breve alargou-se-me. A mitização da vida cotidiana, dos objetos familiares, enriqueceu meu tempo e meu espaço, tirando-me o apetite para os trabalhos triviais; daí minha falta de vocação para um determinado ofício, carreira, profissão. “Quel siècle à mains!” segundo, desdenhosamente, Rimbaud. * O prazer, a sabedoria de ver, chegavam a justificar minha existência. Uma curiosidade inextinguível pelas formas me assaltava e me assalta sempre. Ver coisas, ver pessoas, na sua diversidade, ver, rever, ver, rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida. A leitura de A idade do serrote também inspira a querer ver mais e mais e mais.

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