Ilhéu -

    Edson Cruz

    Patuá
    2013
    88 páginas
    2h 56m
    ISBN-13: 9788582970355
    Português Brasileiro
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    vivian aurora de moraes bragagnolo picture
    vivian aurora de moraes bragagnolo03/09/2014Resenhou um livro
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    O Eu e o Verbo em "Ilhéu"

    Edson Cruz, que está concorrendo ao prêmio Portugal Telecom com seu livro de poemas "Ilhéu", terceiro livro seu, mostra-se muito à vontade em fazer poesia e, melhor, fazer poesia sobre si mesmo, sua terra, suas saudades. Baiano de Ilhéus, ele escreve, inclusive parafraseando Jorge Amado, no poema "Vassoura-de-Bruxa": "Aquelas águas-vivas envolvidas em algas e sargaços brilhavam na areia da praia diamantes não lapidados. Traziam a memória de um tempo sem começo. Uma infância irrealizada entre as praias e a brisa de Ilhéus. Um menino arrancado de seu berço de sal e sol atirado sem dó, sem nota qualquer no abraço concreto das noites frias do sul. Um cacau tomado pelo fungo. O exílio em outras terras do sem fim." Outro poema com nota biográfica, e muito tocante, em "Ilhéu", é "Biblioteca": "A biblioteca do pai de Borges foi o fato capital de sua vida. Ele nunca saiu dela, disse. Em minha casa nunca tive livros. O fato capital de minha vida é não ter tido pai. Minha mãe foi minha biblioteca. Ensinou-me tudo. Nunca saí dela. Era analfabeta e deveria ter se chamado Alexandria." Uma influência oriental é percebida na leitura dos poemas de "Ilhéu". Vários deles se dedicam a temas transcendentais. São muito bonitos os versos de "Awakening": "Te Chuan Su sonhou que era uma mariposa listrada, esvoaçante. Ao acordar não sabia mais se era um homem que sonhara ser mariposa. Se era o mar, uma meretriz ou mariposa que sonhava ser um homem esvoaçante." É um poema bastante libertário, bem como "Arabescos", em sua lírica plena, e "Suicídio": "Álgebra rápida do discurso. Falar é fácil, pensar é mais ainda. Fazer é menos, máxima subtração do devir. Subir aos céus para se unir com o todo. Descer aos infernos para se despedaçar no nada - dizem os suicidas. Sou um animal désolé, um homem pensante. Meu pensamento se transforma em garatujas. Os animais não se suicidam e Werther demorou tanto para fazê-lo que Gide confessou querer empurrá-lo. Pensar é morrer a conta-gotas." Como tantos poetas da atualidade (e de todos os tempos, aliás, mas sobretudo agora), Edson não se furta ao exercício literário de poetizar sobre a própria literatura, em poemas como "Engenho": "Dizem que a função da arte é resgatar com siso de suas formas as pistas de um anjo. A legião dentro de mim abre um sorriso de arcanjos decaídos." Os dois poemas acima revelam um lado "chiaroscuro" de Edson Cruz: a queda, o anjo, a redenção. Há nele também o protesto surdo, como neste excerto de "Melancholia": "Uma criança esquálida tomba neste instante como uma árvore na floresta. Não existe mais. Nunca existiu. Nenhuma arte a tocou. Nem o corvo do Allan Poe." Poesia bonita, bem constituída, feita para tocar: assim é a arte de Edson Cruz, revelada em "Ilhéu". Não é à toa que o livro tenha sido indicado ao prêmio. Enquanto o resultado não sai, temos uma expectativa, em "Transposições": "Ainda sofro de metáforas. Preconceitos poéticos do real. Sôfrego de diáforas".

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