Quem conhece Luís da Câmara Cascudo apenas como folclorista e etnógrafo vai se surpreender (e se deliciar) com este Canto de Muro. "Romance de costumes", como o chamou o autor, o livro pode ser definido como um deslavado namoro com a natureza e reverência pelas espécies animais menos prestigiadas pelo bicho-homem: ratos, cobras, escorpiões, morcegos, aranhas, baratas "profissionalmente famintas", formigas, besouros, o grilo "solitário e tenor", o sapo "orgulhoso, atrevido e covarde na classe musical dos barítonos", as lagartixas, muito educadas, balançando "as cabecinhas triangulares concordando com tudo", todo o povinho miúdo que vive nos quintais das velhas casas, nos cantos de muro, entre trepadeiras, tijolos quebrados, e um tanque, no qual vão se abeberar os bem-te-vis, os xexéus, as lavadeiras de casaca preta. Com tais senhores e senhoras flagrados em suas atividades diárias (a busca de alimento, a luta das espécies, os rituais de acasalamento), Cascudo constrói uma espécie de narrativa épica, repleta de poesia, na qual esses pequenos e humildes seres assumem a grandeza de personagens de Homero. De fato, há alguma coisa de epopéia na caçada de Sofia, a coruja, aos morcegos, no banquete de Fu, o sapo, deliciando-se com uma colônia de mosquitos, mas engolindo também um inconveniente besouro que ferra a sua língua grossa, no grilo roendo madeira velha e tendo como sobremesa sementes verdes e talos tenros, no duelo de Titius, o escorpião, que ao correr "lembra uma gôndola de doge de Veneza", e nas atividades de tantos outros Ulisses e Agamenons do quintal. Só que eles não lutam pela conquista de Tróias ou de tesouros. A sua luta é mais humilde, pela sobrevivência da espécie, o que, no fundo, significa também a própria conservação do planeta e a conseqüente sobrevivência humana. Sob esse aspecto, Canto de Muro é também um manual de ecologia.
Canto de Muro -
Luis da Câmara Cascudo
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"Canto de Muro" é o título de um dos livros do célebre folclorista Luís da Câmara Cascudo #camaracascudo e deveria ser leitura obrigatória para naturalistas (profissionais ou amadores) e de todo aquele que se preocupa com meio ambiente. Foi publicado pela primeira vez em 1957 e reeditado pela Global Editora em 2006. Eu mesmo só conheci o livro agora graças a dica de leitura do professor Paulo Franchetti. Nele, Cascudo descreve a vida dos vários animais que frequentam o 'canto de muro' do seu sítio no Rio Grande do Norte. Cascudo era um naturalista de mãos cheia. Conhecia os clássicos (Cuvier, Buffon, Fabre, Darwin) com quem chega a dialogar nestas páginas deliciosamente escritas em tom informal, mas cheias de informações valiosas. O livro é dividido em 25 capítulos não numerados, sendo o primeiro uma introdução ao local onde todas as observações (ou a maioria delas) foram realizadas. O último capítulo é um depoimento de como o livro foi escrito e em que circunstâncias. O tom é às vezes, irônico, sarcástico e com ótimo humor, e cada capítulo descreve a vida de um animal habitante daquele canto. Veja alguns exemplos: Sobre o escorpião (apelidado de Titius) "Ninguém o olhou sem o arrepio do medo e o enfrentou sem receio. Titius conserva a fidelidade obstinada e cega à ferocidade instintiva e bruta dos animais primários. Não tem aliados, amigos, companheiros. Na vastidão da terra inteira só enxerga adversos a combater. Os da própria espécie, do mesmo tipo, são seus contrários. Encontrando-os, batalha! Lembra aqueles hussardos de Napoleão que só sabiam dizer: - Nous batre! Nous batre!..." Sobre a ratazana, natural da Ásia, mas introduzido acidentalmente em várias partes do mundo: "Suporta e sobrevive intacto aos calores da Pérsia, gelos da rússia, invernos da Europa Central e do Leste, travessias oceânicas, rigores de Londres, verões tropicais do Continente Americano, clima de Nova Iorque e de Punta Areña, sertão do Nordeste, planície amazônica, alagados de Marajó, docas do Rio de Janeiro e de Santos, cais de Buenos Aires." Sobre o bacurau (apelidado de Niti): "Niti está caçando insetos e o fará, com maior ou menor entusiasmo, até o clarear do dia. De papo abastecido por algumas horas, volta ao seu pouso ocasional porque independe, bicho feliz, de possuir domicílio certo até a postura dos dois ovos brancos, com pintinhas violetas... Niti é conhecido por curiango e também bacurau. Teodoro Sampaio informou que bacurau é voz onomatopaica mas Rodolfo Garcia disse que talvez fosse originária de mbaê, coisa, bicho, e curau, que-solta-a-língua, o maldizente. Essa habilidade humaníssima do bacurau ser falador, mexeriqueiro, enredador, creio justa para ave de tão composto e sisudo porte." Ainda há capítulos sobre o canto dos Xexéus e dos canários, o veneno da cobra-coral, o aparente dolce far niente do sapo cururu, as brigas territoriais das aranhas, a sociedade perfeita das formigas-saúva e um capítulo especial sobre a inacreditável vida dos besouros rola-bosta. O livro é um manancial de informação de história natural recheado de citações literárias, históricas e mitológicas além daquelas dos naturalistas já mencionados acima. Só lendo-o inteiro mesmo, cheio de observações minuciosas típica de um grande naturalista. Eu recomendo já sua leitura no ensino médio, pois acredito que sirva como um despertar às ciências biológicas.
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