Há um tipo de história que não se escreve, se passa adiante.
João Garcia reuniu o que o Dr. Gabriel, delegado do interior paulista, viveu e ouviu ao longo de décadas. Coronéis decadentes, beatas escandalizadas, adultérios consentidos, festas com sanfona e pecado. Não é ficção disfarçada de realidade. É realidade que sobreviveu por ser boa demais para ficar no silêncio. O que desorienta é a familiaridade. Quem é do interior reconhece esses personagens sem nunca tê-los encontrado. O tipo do coronel, a figura da comadre, o compadre da zona rural com mais segredo do que conversa. Não são arquétipos literários, são pessoas que existem em toda cidade pequena com nome diferente e história igual. Ler o livro sendo da região é menos descoberta e mais reconhecimento, a sensação de que alguém finalmente escreveu sobre gente que você conhece. Para quem cresceu ouvindo histórias assim na beira do balcão ou na calçada de casa, a vontade é de saber a origem de cada uma, o nome real, a cidade, o que aconteceu depois. O único incômodo é que termina. Cada conto abre um universo que pede mais, e o livro segue em frente. Garcia fez o que o melhor da literatura regional faz quando funciona: preservou o que a história oficial não registra. O que passa de boca em boca, o que todo mundo sabe e ninguém assina.
