This changes everything: Capitalism vs the Climate
O livro "This changes everything: Capitalism vs the Climate", da escritora canadense Naomi Klein, está para o movimento climático assim como o livro "Primavera Silenciosa", da americana Rachel Carston, está para o movimento ambiental. Se na década de 60 o último transformou a história do ambientalismo, Naomi Klein produz um livro capaz de influenciar profundamente o ativismo climático e maneira como o público em geral percebe o tema. Isso porque o livro discorre com enorme detalhamento sobre vários aspectos das mudanças climáticas, envolvendo cultura, economia, meio ambiente e sociedade. Embora tenha sido escrito antes do Acordo de Paris, que atualmente orienta a governança global da crise climática, Klein faz discussões indiscutivelmente atuais. Afinal, hoje mais do que no passado, embora as mudanças climáticas dominem o discurso político, os dados mostram que a trajetória ascendente de emissões de gases de efeito estufa têm nos direcionado a um futuro que será hostil à vida. A autora discorre longamente como muitas das 'soluções' propostas para a mitigação da crise climática (mercados de carbono, compensação por emissão de gases, etc) assentam-se sobre as mesmas premissas que causaram a crise, que é o extrativismo. Todas essas 'soluções' falham em remover a licença social da extração dos combustíveis fósseis. Para ela, ainda que fosse bem intencionado (o que não é), o capitalismo é incapaz de fornecer uma resposta adequada às mudanças climáticas, justamente porque seus fundamentos são inerentemente extrativistas. Um ponto especialmente profícuo do livro é a discussão sobre geoengenharia. Nela, Klein nos faz refletir sobre a nossa incapacidade de conceber um modelo de sociedade fora do extrativismo. Por isso, nós nos arriscamos perigosamente a propor alterações na engenharia planetária, sem conhecer os riscos envolvidos nessa aventura. Ou, conhecendo-os, assumindo-os quando as consequências recaem sobre aqueles desprovidos de poder econômico e político. Tudo sob a cunha de ser uma esperança tecnológica de salvação quando a diplomacia falhar, para que não tenhamos que alterar as estruturas que mantém os atuais padrões de consumo de uma elite que absorve grande parte do que é produzido no mundo. Outro ponto forte é a discussão sobre os movimentos de resistência ao cenário de crise climática, que a escritora chama de Blockadia. Esses movimentos existem desde sempre, nas pequenas comunidades, nas populações tradicionais, nos povos originários e em todos aqueles que são historicamente marginalizados da tomada de decisão, mas que são os primeiros a sofrerem as consequências negativas dela. Historicamente silenciados, esses movimentos têm ganhado evidência em vários setores da sociedade nos últimos anos e acumulado vitórias expressivas, apesar de ainda serem reprimidos com rigor, e são os únicos capazes de propor estruturas fora do modelo extrativista e que possam garantir um futuro mais sustentável. Ainda lembrando "Primavera Silecionsa", o livro de Naomi Klein é um relato pessoal com beleza literária, que mostra o desenvolvimento da compreensão da autora sobre o problema, como isso promoveu seu engajamento com as questões climáticas e como define suas esperanças para o futuro. Esse subjetividade favorece o envolvimento do leitor, que muitas vezes é leigo nas questões mais técnicas sobre o tema. Evidência disso é o capítulo no qual a escritora relaciona sua história pessoal com a maternidade e seu envolvimento com as questões climáticas, elucidando como a primeira influenciou a maneira como ela se posiciona atualmente sobre a crise. Ao final do livro, a autora se propõe a discutir se, diante da dura realidade dos fatos, ainda é possível esperançar por uma solução para a crise climática. Sem dúvidas, essa solução passa necessariamente por uam transformação radical nos pilares da sociedade, para a qual é difícil traçar paralelos na história. Ela nos lembra de alguns momentos na história que podem nos dar alguma esperança: o movimento abolicionista, os movimentos pelos direitos civis, o movimento contra o apartheid, as lutas sindicais pós crise de 1929, entre outras. Entretanto, a autora ressalta que, apesar de terem sido pontos de inflexão que questionaram a moral do status quo da sociedade em seu tempo e modificaram suas estruturas, como precisamos fazer com a crise climática, muitos desses movimentos mantiveram as estruturas econômicas relativamente intactas (por exemplo, apesar do fim da escravidão, os negros continuaram marginalizados na sociedade). Para Klein, a radicalidade do enfrentamento às mudanças climáticas demanda a alteração dessas estruturas, ilustrando a magnitude do desafio a ser superado.

