Ontem, Hoje e Amanhã -

    Sophia Loren

    Record
    2014
    320 páginas
    10h 40m
    ISBN-13: 9788576848677
    Português Brasileiro

    Um dos últimos mitos vivos do cinema, Sophia Loren sempre encantou o mundo com sua beleza estonteante, seu charme incomparável e suas atuações marcantes. Agora, aproximando-se de seus 80 anos, Loren conta sua trajetória nas próprias palavras uma história que, segundo ela própria, mais se assemelha a um conto de fadas. Abordando desde a infância pobre em Nápoles até os tapetes vermelhos de Hollywood, Cannes e Berlim. É um livro revelador não apenas sobre a vida pessoal de Sophia Loren, mas também sobre a história do cinema e de alguns outros grandes nomes da sétima arte com quem Loren dividiu os holofotes: Marcello Mastroianni, Peter Sellers, Charlie Chaplin e Audrey Hepburn, apenas para citar alguns.

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    Alan santana20/01/2026Resenhou um livro

    Há autobiografias que se limitam a organizar lembranças; outras constroem um mito retrospectivo. Ontem, Hoje e Amanhã: A Minha Vida pertence a uma terceira categoria, mais rara: a de livros que revelam como um mito se construiu sem jamais deixar de ser humano. Sophia Loren, uma das últimas grandes figuras da era dourada de Hollywood, escreve não para se justificar nem para se glorificar, mas para dar forma narrativa à própria sobrevivência. O título já indica o tom: não há ruptura entre passado, presente e futuro. A vida de Loren é apresentada como um fluxo contínuo, marcado menos por escândalos ou triunfos fáceis e mais por resiliência, disciplina e dignidade. Nascida Sofia Scicolone em meio à pobreza extrema do pós-guerra italiano, criada sob o peso da fome, da guerra e do estigma social, Loren constrói sua trajetória sem jamais apagar suas origens. Pelo contrário: é justamente nelas que encontra sua força. O livro ganha densidade quando se afasta do glamour hollywoodiano — que, curiosamente, nunca é o centro da narrativa — e se aproxima da Itália devastada, das filas por comida, das humilhações silenciosas impostas às mulheres pobres, da infância moldada pela escassez. Sophia Loren não romantiza esse período; ela o encara com uma lucidez quase estoica. O mito nasce ali, não nas telas, mas na recusa em aceitar a miséria como destino. Quando Hollywood finalmente entra em cena, o faz de maneira desmistificada. Loren revela um sistema que produzia sonhos ao mesmo tempo em que devorava identidades. Diferente de muitas estrelas de sua geração, ela não se deixa absorver completamente pelo maquinário americano. Mantém sua ligação com a Itália, com a língua, com a cultura e, sobretudo, com a própria imagem enquanto mulher — algo que, na época, exigia uma força incomum. Sua relação com Carlo Ponti, frequentemente alvo de leituras superficiais, aparece no livro como uma escolha complexa, marcada por amor, lealdade e também sacrifício. Um dos grandes méritos da autobiografia está na forma como Loren aborda a feminilidade. Ela jamais se apresenta como vítima, mas também não adere à retórica contemporânea de empoderamento abstrato. Sua força é concreta: trabalho, constância, autocontrole. Sophia Loren não se tornou um ícone por romper com tudo, mas por saber negociar com o mundo sem perder a si mesma — algo que hoje parece quase anacrônico. Ao longo do livro, percebe-se uma consciência clara de pertencimento a uma era que não existe mais. Loren escreve como quem sabe que sobreviveu não apenas ao tempo biológico, mas ao colapso de um sistema cultural inteiro. A era dourada de Hollywood — com todos os seus vícios, hierarquias e contradições — desapareceu, e ela permanece como testemunha viva. Não há nostalgia vazia, mas uma melancolia serena, de quem compreende que certos mundos não retornam. Ontem, Hoje e Amanhã não é uma autobiografia explosiva, nem busca revelações sensacionalistas. Seu valor está justamente na sobriedade. É o retrato de uma mulher que atravessou a pobreza, a guerra, o estrelato e o envelhecimento sem jamais perder a compostura — uma virtude cada vez mais rara. Sophia Loren não escreve para ser admirada; escreve para deixar registrado que o mito, antes de tudo, foi uma mulher que aprendeu a permanecer de pé. No fim, o livro funciona como um epitáfio antecipado de uma época e, ao mesmo tempo, como um lembrete incômodo: a grandeza não nasce do excesso, mas da medida. E talvez seja por isso que Sophia Loren, mais do que uma estrela, permaneça um símbolo — não apenas do cinema, mas de uma ideia de mundo que já não sabemos mais reproduzir.

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