A origem do livro A Inquietante Beleza do Feio foi um exercício de articulação poética entre contos literários e uma teoria acerca da interpretação com máscaras, da estética do feio e da criação como ato lúdico (em viés psicanalítico) na pesquisa do trabalho de conclusão de curso da Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH), com orientação de Marcos Barbosa. A pesquisa enfocou também as possibilidades de intersecção entre a arte e a psicanálise, ambas compreendidas como espaços da ilusão, da fantasia, dos desejos e das inquietações. As definições acerca do Belo são há muito tempo o alvo de inquietações de filósofos e de artistas. E é devido a elas que se tornou possível reconstruir uma história da estética. Contudo, o mesmo não aconteceu com o Feio, havendo poucos tratados e considerações relevantes sobre o tema. Aqui, partindo das reflexões de Umberto Eco, não se pensa o Feio em oposição ao Belo, mas sim em suas características peculiares, considerando conceitos próprios, relativos aos vários períodos históricos e aos seus estranhamentos nas diversas culturas.
A Inquietante Beleza do Feio - Ensaios poéticos sobre as máscaras, o feio e a criação artística
Fernanda Fazzio
A livro do horror, da beleza e da inquietude
"A inquietude beleza do feio", livro experimental da psicóloga e bacharel em Teatro Fernanda Fazzio (Patuá, 2014), é uma fascinante colcha de retalhos em prosa poética com uma "pegada" de Guimarães Rosa. O escritor consagrado e admirado dá o mote do livro, que tem as primeira, segunda e terceira margens e um algo mais. A teoria é oferecida em textos curtíssimos, como pinceladas, abrindo o enredo em que se mergulha ao abrir o livro. Fernanda embasa sua teoria do horror na estética ocidental em Freud, Lecoq e Eco, demonstrando abrangência nas áreas de psicanálise, o teatro e suas máscaras, e a semiótica. A teoria, no livro, fica mais densa quando a autora escreve: "A busca pelo próprio clown é uma pesquisa do próprio ridículo, como defende Jaqcques Lecoq. É a menor máscara do mundo, caracterizada somente pelo nariz vermelho". E o livro, polifônico e interessante, abre com a figura justamente de um clown, o "doido" da Vila Grandina - porque, afinal, toda vila, cidade ou bairro tem o seu doido, o vagabundo a quem se xinga e de quem se ri. Posteriormente, a autora apresenta e dá voz a uma personagem que literalmente "cai" em Vila Grandina (nome que contrasta com essa nova personagem): Durvalina, uma anã. Em meio a muita confusão, a anã é adotada por uma menina que brinca com ela como uma boneca viva, servindo-lhe chá de flores e pondo-a para dormir na casa de bonecas. Há ainda a louca do hospício. Embora não se desenhe aqui um roteiro do livro, o que o empobreceria, podemos pinçar um texto teórico de outro capítulo a respeito dela: "A estética do Romantismo ainda aproxima a beleza à feiura da doença, manifestada, por exemplo, nos estados febris em que o adoecer confere ao convalescente um aspecto etéreo, potencializado no seu estado de morte. Umberto Eco comenta que, nesse contexto, doenças que deformam o corpo não perdem o caráter do feio, mas conseguem fascinar pelo seu caráter devastador. Assim, o "maravilhamento" dos românticos é representado nas artes figurativas especialmente no exausto abandono de uma beleza diante da aproximação da morte". Ora, quem está mais perto da morte que uma suicida? A louca no hospício e seus questionamentos são um belo momento do livro. Ela se indaga e se responde: "(...) tomo as vinte e duas gotinhas transparentes. Nessas horas, tudo vira dúvida, e eu penso que estou deixando algo escorrer a cada comprimido ingerido. É como se o contéudo de cada pílula fosse usurpando a alma do meu corpo, até eu ficar completamente sem som, sem ritmo, sem cor nenhuma, assim: completamente vazia". Mas o que a louca do hospício, o clown, Anabela e a anã Durvalina têm em comum? A resposta vem com a ávida leitura que esse livro de Fernanda Fazzio proporciona, como num jogo de lego, em que se juntam partes dialógicas para compor um todo, ainda assim, não unificado. Parece ficar faltando uma ponta no tecido. Por quê? Porque esta é a "inquietante beleza do feio".
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