Este livro faz a você, leitor, uma proposta: que tal se o prazer, em todas suas variações, se tornar o objeto de sua vida? Afinal, o Paraíso é a exuberância do prazer. Os poemas da Criação sugerem que Deus criou o universo infinito só para nele plantar um pequeno jardim de delícias. Depois do trabalho de cada dia, diz o poeta, Deus parava, contemplava, sorria e dizia: Ficou muito bom... Ao ler as páginas desse livro você se descobrirá caminhando ao lado de santo Agostinho, do revolucionário Marx, do filósofo Nietzsche e da cozinheira Babette. Personagens, reais ou fictícios, que viveram desfrutando o que acreditavam. Eles têm muito a nos inspirar. Deixe-se perder nas páginas desse livro e descubra as diversas variações sobre o prazer.
Variações Sobre o Prazer -
Rubem Alves
Transubstanciação
(...) que um manual de manuais é a carne de um homem ou mulher (...) Walt Whitman Em música, a técnica das variações é uma forma de repetir o tema/conteúdo com mudanças formais. Como tudo se entrecruza, tudo é novo. Sentimos que conhecemos, mas sentimos que não. É dessa forma que Rubem Alves organiza seu livro. Passeando por saberes já dados e reproduzidos sem questionamentos, ele os equestiona, Rubem rege caminhos diferentes. A sua própria tessitura textual se repete, varia. Um dos temas que atravessam o livro é o questionamento do método. O método científico, rigoroso, que busca uma verdade objetiva. Um método, por ser um método, esquece a carne, o corpo, o prazer. Eis um dos problemas. A sua escolha pela escrita ensaística é gestada dessa problemática. Anti-acadêmica. Uma escrita brumosa, metafórica, atravessada por versos, enigmática, subjetiva. A escrita como conversa, afinal, a conversa é uma metáfora dos jogos amorosos. É necessário escrever como se conversássemos com nós, com o outro, com nosso corpo; sempre de modo diferente, divergente, espantar para ser espantado. Indo por outro caminho, como nos diria Deleuze: É necessário ser um estrangeiro em sua própria língua, traçar um plano de fuga. Com isso, diferentemente do panteão científico que expulsaria este livro das suas pilastras, não há objetivos de se chegar a uma conclusão, a respostas, mas a provocar questionamentos, pensar o meio. Evidentemente, esse próprio texto é uma partitura ensaiada por mim, com aquilo que me atravessa, por isso tão subjetivo, ensaístico. Não estou resenhando, resumindo, mas traçando linhas que se chocam. O esquecimento é uma destas linhas. Outro princípio que movimenta Variações sobre o Prazer. Ao dançar com Barthes, que traz a força viva do esquecimento, o próprio fazer científico o de pesquisadores é posto em xeque. Não precisamos reproduzir, mas encontrar por nós mesmos. Para isso, não devemos ficar repetindo o já dito. Manoel de Barros já disse: Desaprender oito horas por dia ensina os princípios. Esquecer para aprender. Vamos começar esquecendo os objetivos, a utilidade. Não devíamos vislumbrar apenas o final do caminho, mas como somos regidos pelo fim, não aproveitamos o caminho, o meio. Utilitários, nos afobamos, cansamos antes da hora. Ao chegar no cume da montanha, nem observamos sua paisagem, queremos subir para a próxima. Já que não somos ensinados a contemplar a beleza, a nos deleitarmos com a vida, a simplesmente sentir, como ensinar? Precisamos sentir com o nosso corpo, não temos que ver com a razão, com o pensamentos. A lição está em Alberto Caeiro, ver sem pensar, ou, nos dizeres de Oswald: "Ver com olhos livres". Caeiro, conforme sugere Fernando Segolin, observa na palavra sígnica, na linguagem, um abismo que nos separa da realidade. Devemos aprender a ver/ouvir sem a percepção sígnica, mas com a percepção do silêncio. O próprio tempo surge como uma máscara simbólica, a natureza dividida em partes, quando, na verdade, tudo é uma unidade da qual fazemos parte. Não à toa, Alberto Caeiro se profusa ao longo do livro. Os dois trechos a seguir podem ser contemplados por professores e alunos, na mesma medida, no mesmo prazer: há prazeres que moram no tempo da espera & o prazer exige vagareza, não há pressa. Demorei longos meses para ler este livro. Foi uma escolha. Respeitei Rubem, quis prová-lo aos poucos, degustá-lo. Tentei, como o próprio Rubem diz sobre a transubstanciação, beber o sangue de quem escreveu, como em um rito de uma refeição antropogágica. Ao escrever sobre este livro, me questiono como João Antônio se questiona: "Se não sangra, é escrever? Sim, "escrever é sangrar". Assim, despejo meu sangue sobre a mesa. Este livro é a ponte que me conecta (e me conectou) com o amor da minha vida. Curioso notar. Quando Rubem define a inteligência em dado momento do livro, ele a coloca como uma ferramenta para resolver problemas que, quando comandada pelo desejo, busca resolvê-lo. Como ferramenta, ela faria parte da feira das utilidades em oposição à feira da fruição, todavia, é possível que ela seja os dois. Afinal, o corpo também pensa O corpo dança. Como Rubem, como Roberto Piva, como Nietzsche, só posso acreditar em um Deus que saiba dançar. Nós fomos completamente comandados pelo desejo. Mas não buscamos resolver problemas, não tentamos nos encontrar desesperadamente. No fundo, mesmo que inconscientemente, vivemos o caminho. Rubem também diz: tolos, pensamos que a alegria está ao final do caminho. E caminhamos distraídos, sem prestar atenção. Felizmente, neste caso, apenas aproveitamos o caminho. Prestando atenção. Porém Quando chegamos a um possível fim do caminho, ele se multiplicou em uma infinidade de caminhos, pois o prazer e a alegria dançaram. Mário de Andrade pode nos ajudar: Mas porém sei parar diante das vistas pensativas. Há uma possibilidade de imbricamento entre o prazer e a alegria. Para o prazer existe uma necessidade em se alcançar o objeto desejado, mas, infelizmente, ele tem vida curta, tão logo nos satisfazemos; Para a alegria não precisamos da posse, podemos senti-la apenas na imaginação e ela nunca se farta, é insaciável. Quando os dois se fundem, o divino se faz carne. Minha relação amorosa, que começa em uma conversa sobre este livro, inicia-se com a alegria, quando imaginávamos que poderíamos ser um do outro. Quando o prazer dançou conosco, era como se tudo fosse uma unidade. Eu, ela, o prazer, a alegria. Tudo. Sim, Espinosa estava certo. Se a consciência, a razão, é uma superfície, ela reflete um lago. Eis os saberes, reflexão é pensar os reflexos. Porém, quando mergulhamos, conhecemos como que a outro mundo, as profundezas, o corpo, aquele que não pode ser descrito em palavras-conceitos, mas vivido, sentido. Primeiro, estivemos na superfície, sentindo a alegria. Depois, estivemos nas profundezas, sentindo o prazer. No fim, quando nos encontramos, tudo era uno. Percebem o erotismo do meu texto, das ideias de Rubem? A erótica da educação e a educação da erótica seria o título do livro que não foi escrito. No lugar, é este que lemos. Rubem tentava escrever um livro entre os pilares, buscava respostas, mas quando percebeu que não as encontraria, se permitiu dançar junto a seus objetivos que acabaram se tornando um meio. Um livro entrecortado, com variações, com manifestações poéticas, com questionamentos e ataques. Desse modo, ele não falava só de educação, falava de si mesmo. Falava de suas próprias mudanças ao longo da vida, de suas crenças que se modificavam; ele encontrou a sua criança na velhice. Amadureceu voltando à infância. Vamos a Charles Baudelaire: A criança vê tudo como novidade; ela sempre está inebriada; Nada se parece tanto com o que chamamos inspiração quanto a alegria com que a criança absorve a forma e a cor. Se o objetivo da vida é o prazer, os educadores e os educados devem senti-lo. A proposta: 1. educar os sentidos, nos despir da objetividade, da tela (mental) que nos impede de tocar o objeto. Devemos degustar o mundo com nosso corpo. Os sentidos dançam, bailam; 2. educar os educadores, devemos despertá-los, encontrar o talento adormecido; 3. a criança, voltar à criança, sempre a criança, o sinal máximo de maturidade. Se a escola visa transformar a criança em adulto, devemos fazer o oposto, afinal, ser adulto é cer cego. Eis o livro. Sim, o tema central do livro é o prazer, algo inscrito em nossos próprios corpos. Foi o que fez Rubem ao escrever este livro, sentiu o prazer irradiando pelo seu corpo e se permitiu escrever como se tocasse variações. Uma autobiografia. Eis o livro. Se na ideia primeva de Rubem, ele escreveria um livro sobre educação o que em um certo sentido o fez , para além desta possibilidade, ele escreveu sua autobiografia. Eis o livro.
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