Esse é um livro incrível por muitos motivos. O romance mistura autobiografia e ficção de forma extremamente original, partindo de um fato inusitado: a descoberta de um irmão alemão de Chico Buarque, filho de Sergio Buarque de Holanda, de quando ele, ainda solteiro, passou um período residindo na Alemanha. Na vida real, Chico ficou sabendo da existência do irmão alemão aos 22 anos, durante uma conversa com o poeta Manuel Bandeira, amigo da família, que em dado momento inadvertidamente perguntou por aquele filho alemão de seu pai. Muitos anos depois, graças ao trabalho de pesquisa do historiador João Klug e do museólogo Dieter Lange, Chico acabou travando contato com a existência de Sergio Günther, seu irmão alemão.
Essa história, por si só, poderia dar origem a uma narrativa muito interessante. Contudo O Irmão Alemão vai bem além da mera curiosidade biográfica ao mesclar fato e ficção de forma totalmente anárquica e irresistível. Chico inventa desbragadamente ao nos contar da busca incessante de seu alter ego Francisco de Hollander pelo irmão desconhecido na Alemanha, mas ao mesmo tempo mantém firmes e convincentes ancoramentos nos fatos históricos. Essa factualidade não se dá apenas quando Chico fala de sua família, mas especialmente ao se referir ao período da ditadura militar no Brasil, que aparece no livro como um horripilante contraponto ao período da ascensão do nazismo na Alemanha. E com essa mistura de invenção com verdade Chico consegue um feito notável: sua narrativa torna-se maior que a ficção, mais ampla que a própria realidade. A função artística do romance, que é retratar a vida como um todo, alcança em O Irmão Alemão um diapasão altíssimo.
Que ser é esse, que se intitula Chico Buarque de Hollanda? De que planeta veio? A ele não basta ser um dos compositores mais geniais e fecundos da Música Popular Brasileira, ainda quer se tornar um escritor pelo menos tão bom (se não melhor) que o músico? E nem isso é suficiente para o insaciável Chico: não é que a cada livro ele consegue se tornar ainda melhor que no livro anterior? Isso para não falar naqueles olhos lindos e naquele charme discreto que arrebatam legiões de fãs!
Se eu mesmo não tivesse tido a inesquecível experiência de assistir a um show de Chico no Canecão, seria difícil acreditar que tal magnífica criatura existe realmente, em carne e osso. Mas mesmo se não fosse por esse show, eu jamais iria crer, como acontece com tantos seres embotados e abobalhados hoje em dia, que Chico Buarque não passa da mais espetacular mentira da esquerda brasileira!
Pois que tanto talento, tanta verve, tanta erudição, tanta genialidade, tenham sido postos tantas vezes a serviço da conscientização do povo brasileiro a respeito das brutalidades da tirania e dos massacres cotidianos das injustiças sociais, é mais do que podem suportar os corações apequenados pelo fascismo. É por isso que tanta gente burra odeia Chico Buarque. Já há alguns anos percebi que um dos sinais infalíveis da boçalidade verde-amarela é o ódio babento e invejoso pela figura de Chico Buarque. Se o sujeito abrir a boca para falar mal de Chico, é batata: já sabemos em quem votou nas eleições de 2018. A inveja é mesmo uma merda...
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