A Última Gota -

    Vanessa Barbosa

    Editora Planeta
    2014
    244 páginas
    8h 8m
    ISBN-13: 9788542204476
    Português Brasileiro

    O livro A Última Gota mostra o drama da falta d’água e os problemas que comprometem a sua oferta, em qualidade e quantidade, nas grandes cidades do Brasil. Parte da explicação da crise é suja e mal cheirosa. Em pleno século XXI, ainda deixamos de tratar 4 litros de cada 10 litros de água de esgoto coletado, que é despejado “in natura” em córregos, rios e no mar, comprometendo a qualidade das águas e gerando uma conta salgada para a saúde. Já que sem água não se vive, água suja mata! Isto é ou não é a última gota? É preciso agir rápido frente ao crescimento galopante dos desafios. Todos os anos, milhares de novos produtos químicos são produzidos e derramados em nossa água; muitos, com potencial de perturbar os hormônios dos seres vivos, passam incólumes pelos sistemas de tratamento. Fenômenos como secas, enchentes, furacões e temperaturas extremas estão em ascensão em todo o mundo, causando perda de vidas e atrasando o desenvolvimento econômico e social por anos, se não décadas. Num mundo em aquecimento, secas mais intensas e frequentes vão exacerbar a concorrência pela água entre a agricultura, os consumidores em suas casas, indústria e produção de energia, afetando a oferta de água, energia e a própria segurança alimentar. Em muitas regiões, cada gota a menos pode emergir como uma nova fonte de conflito. Estaremos preparados?

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    Rafael Maltez30/07/2016Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Na era dos extremos e polarizações, inclusive em matéria ambiental, uma obra ponderada, equilibrada, fundada em ampla pesquisa e que traz não só os problemas relacionados à crise ambiental e especificamente à água, mas também soluções. O conteúdo informativo é rico e vasto, sendo a questão da água analisada sob diversos ângulos e fatores: causas de sua falta, água e indústria, água e agricultura, as ameaças na nossa água, a guerra por água, a poluição hídrica, causada por agrotóxicos, fertilizantes e outros produtos agroquímicos que escoam para os lençóis freáticos, contaminando rios, lagos e reservas subterrâneas etc. Um dos pontos que destaco é a constatação de que a questão hídrica se colocou para o mundo não por capricho de São Pedro, mas por conta da conduta humana na Terra, agravada por políticas, inclusive hídricas, equivocadas ou incompetentes, inclusive o brasileiro. Somos responsáveis pelo que está ocorrendo. Nesse sentido o quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Um estudo feito pelo Instituto Trata Brasil revela que 37,5% da água tratada no Brasil são desperdiçados. Um dos resultados mais claros da expansão desordenada das cidades “é o aumento das pressões sobre os recursos naturais, incluindo a água. O crescimento desgovernado das cidades é acompanhado de desmatamento de áreas importantes, que comprometem a oferta de água em qualidade e quantidade”. Constata a autor que essa expansão “é marcada por um substancial consumo de recursos naturais. O uso da terra e solo causam particular preocupação, uma vez que são recursos não renováveis em sua maioria. A má ocupação transforma drasticamente as propriedades da terra, reduzindo a sua capacidade de desempenhar funções essenciais no ciclo do hidrológico. Um dos impactos mais evidentes é a perda de permeabilidade à água por conta dos processos de asfaltamento de ruas e estradas, que diminui dramaticamente a recarga das águas subterrâneas e afeta a drenagem das águas de chuva. Tal situação se dá às custas de áreas verdes que ajudam a garantir o adequado funcionamento de ecossistemas e suas funções tão necessárias às cidades”. Especificamente à São Paulo, a autora destaca: “ tudo isso nos ajuda a entender por que a crise de falta de água em São Paulo também é uma crise ambiental. A degradação dos mananciais, essas áreas de produção de água tão necessárias para o abastecimento e consumo de gerações atuais e futuras, durante muito tempo avançou a olhos vistos. Um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica divulgado recentemente indica que, atualmente, restam apenas 21,5% de vegetação nativa na bacia hidrográfica e nos 2.270 quilômetros quadrados do conjunto de seus represas (Paiva Castro, Águas Claras, Cachoeira, Atibainha, Jaguari e Jacareí) que compõem o Sistema Cantareira, fonte de abastecimento para cerca de 9 milhões de pessoas na Grande São Paulo e centro da maior crise hídrica da história do estado. Na pesquisa, a degradação é atribuída à expansão urbana e atividades como agricultura, pecuária e silvicultura. Os impactos do desmatamento em áreas de mananciais são significativos. A floresta tem papel essencial na prevenção de secas, pois reabastece os lençóis freáticos e impede a erosão do solo e o assoreamento de rios. Um dos problemas mais evidentes da supressão de mata nativa é a redução na recarga das águas subterrâneas, o que afeta a drenagem das águas de chuva. Sem as árvores, pouca água é absorvida pelo solo. Segundo o estudo, o percentual de vegetação remanescente está abaixo do ideal para uma bacia hidrográfica produtora de água e também da totalidade necessária de áreas protegidas (incluindo Áreas de Preservação Permanente – APP, topos de morro e encostas) e reserva legal previstos na legislação. Em artigo publicado no Blog do Planeta, da revista Época, Marcia Hirota, diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, sublinha a relação de interdependência na natureza: “Com esses índices de vegetação, não é de se estranhar que o Sistema Cantareira opere, atualmente, com o menor nível histórico de seus reservatórios, já que para ter égua é preciso ter também florestas””. Os equívocos que mais chocam em relação às políticas públicas são os seguintes: - Aquífero Guarani, um dos maiores reservatórios de água doce subterrânea do planeta. Segundo notícia veiculada em março de 2014 pelo jornal Estado de S. Paulo, o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) aprovou o plano de manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) Botucatu, na região central do Estado de São Paulo, mantendo a permissão do uso de agrotóxicos em uma das principais zonas de recarga do aquífero Guarani. A reportagem acrescenta que “a restrição ao emprego de pesticidas e defensivos agrícolas nessas áreas, propostas por entidades ambientais, foi retirada do documento por pressão de prefeitos e grupos empresariais. Ambientalistas afirmam que a medida põe em risco o aquífero em um momento em que o Estado enfrenta sua maior crise hídrica”. - Em 2013, de uma tacada só, a aprovação da Lei n, 12.873 e o Decreto n. 8.133 da presidente Dilma Rousseff facilitaram a importação de agrotóxicos não utilizados no país em casos de “emergência” envolvendo pragas sem precisar passar por avaliação prévia dos órgãos reguladores brasileiros. A nova lei autorizou o Pode Executivo a declarar “estado de emergência fotossanitária ou zoossanitária, quando for constatada situação epidemiológica que inique risco iminente de introdução de doença exótica ou praga quarentenária ausente no país, ou haja risco de surto ou epidemia de doença ou praga já existente”. E o decreto assinado por Dilma concedeu ao Ministério da Agricultura, Pecuária, a Abastecimento (Mapa) o direito de declarar estado de emergência. - Em novembro de 2013, o país realizou o primeiro leilão exclusivo de reservas em terra de gás natural, dando o pontapé inicial ao desenvolvimento do polêmico gás de xisto. O leilão se desenrolou num contexto nada convencional, sem que se tivesse uma legislação ou marco regulatório claro sobre como as explorações devem ocorrer. Além disso, o país ainda carece de estudos aprofundados sobre os riscos socioambientais da extração de gás não convencional. Às vésperas do leilão, organizações técnicas e profissionais ligadas às áreas de meio ambiente e de serviços de água e saneamento protocolaram, na Presidência da República, uma carta aberta à presidente Dilma Rousseff solicitando a retirada da exploração de gás não convencional do edital da 12ª Rodada de Licitações; o pedido foi ignorado. Dos 240 blocos que foram a leilão, 72 foram arrematados. Localizados em Amazonas, Acre, Tocantins, Alagoas, Sergipe, Piauí, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Maranhão, Paraná e São Paulo, os blocos ofertados e adquiridos no leilão estão próximos ou sobre os principais aquíferos (reservatórios subterrâneos de água) brasileiros e também de parques nacionais e outras unidades de conservação, territórios indígenas e de quilombolas, assentamentos rurais e fazendas. Isso eleva o potencial de impactos e conflitos socioambientais e econômicos. As mudanças vieram ao encontro da demanda por soluções para sanar a expansão avassaladora da lagarta Helicoverpa armigera em plantações de soja. Nas esteira das novas regras, em novembro, o oeste da Bahia foi declarado em estado de emergência fotossanitária pelo Mapa. Para combater a lagarta, o Ministério publicou a Portaria n. 1.109, liberando a importação da substância benzoato de emamectina, agrotóxico até então proibido no Brasil. Interessante notar as medidas políticas no sentido de se “racionar” o uso doméstico de água. Contudo, na média, a indústria utiliza 20% de toda a água doce consumida no mundo. É o segundo meio uso do recurso, atrás do agrícola (70%) e à frente do doméstico (10%). Constata-se que o uso doméstico é o que menos impacta na questão hídrica é o que se o poder público mais restringe. Redução de investimentos em combustíveis fósseis, aumento da participação das fontes de energia renovável e adoção maciça de projetos de reflorestamento estão entre as ações de mitigação sugeridas pelos cientistas do IPCC. Sem essas mudanças, a temperatura global poderá subir até 4,8 graus centígrados até 2100, em relação aos níveis pré-industriais. O atraso em agir para reduzir as emissões tornará muito mais difícil e caro o combate às mudanças do clima. A questão do Ártico é muito bem colocada e é simplesmente assustador o quão o ser humano com sua cegueira e falta de consciência está fazendo a si próprio, a todas as formas de vida e ao nosso lindo planeta. Com o desgelo, provocado pela indústria, permite-se acesso ao petróleo de gás natural do Ártico. Conforme a autora, “o degelo se mostra uma verdadeira “bomba-relógio econômica”. Estudo divulgado em 2013 mediu, pela primeira vez, os custos do derretimento, um dos efeitos mais notáveis do aquecimento global. A conta é astronômica, algo próximo de US$ 60 trilhões quase o PIB mundial, de US$ 70 trilhões. A pesquisa publicada no periódico científico Nature desvenda uma perspectiva sombria. Ela destaca o papel fundamental do Ártico na regulação dos oceanos e do clima, e de como seu derretimento poderá intensificar as mudanças climáticas, prejudicando ainda mais colheitas e infraestruturas ao redor do mundo. Sob a camada de gelo do Ártico, existem reservas gigantes de metano (CH4), um gás de efeito estufa 20 vezes mais potente que o dióxido de carbono (CO2). O derretimento dos subsolos árticos congelados, o chamado permafrost, por sua vez contribuiria para o aquecimento adicional do planeta, destaca o estudo”. Mas, apesar desses custos, parece que há interesse nas mudanças climáticas; para acelerar o desgelo no Ártico e permitir a exploração de petróleo e gás natural. Sua exploração irá agravar ainda mais as mudanças climáticas e ameaçar ainda mais a vida na Terra, acentuando o desgelo. Conduta perversa que compromete todas as formas de vida, calcada em visão imediatista e visando unicamente lucro fácil. Nota: 10.

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