Sério. Aprende inglês se for preciso só pra ler esse livro, mas leia em inglês. Acho que a parte mais sutil, dolorosa e bonita desse livro é ver o vocabulário da Precious evoluindo ao longo da história, conforme ela vai estudando e abrindo os próprios horizontes, criando coragem para quebrar o ciclo de violência em que ela nasceu. A mãe de Precious é, para mim, a pior entre os pais dela (embora o pai seja um monstro sem nenhum tipo de humanidade), pois, além de ser conivente com os abusos que o pai da Precious comete com ela, a mãe os incentiva para agradar o marido e culpa a filha por "roubar" o homem dela. Tudo no ambiente familiar de Precious remete a pobreza: o apartamento sujo no prédio velho, a presença constante de drogados na rua e tocando a campainha delas, a comida gordurosa que ela cozinha para a mãe obesa mórbida, mas principalmente a ignorância das pessoas que cercam Precious. É por isso que os momentos onde ela interage com as outras meninas da classe e com a professora, Ms. Rain, são dolorosamente incríveis. A Precious nunca foi bem tratada na escola, nunca foi levada a sério pelos professores ou colegas. Teoricamente, ela não tinha motivo nenhum para querer estudar, ainda mais com a mãe desencorajando-a em casa e dizendo para ela "sossegar na ajuda do governo". A vontade é puramente dela. A Precious tem a ajuda de várias pessoas ao longo do livro, mas o desejo de aprender é apenas dela.
O final do livro não é o que eu gostaria. O cliffhanger sobre a saúde de Precious me deixou incomodada por ser realista demais, embora isso seja mais uma qualidade do que um defeito. Precious é uma menina marginalizada, abusada e negligenciada, é claro que o destino mais óbvio dela seria algo desse tipo. Ainda assim, eu fiquei emocionada com a última página, onde ela está lendo uma história para o filho bebê (que ela ama, apesar de ser o fruto do estupro que ela sofreu do próprio pai, e isso é mais um ponto doloroso do livro) e pensando em quanto tempo ainda terá de vida. Eu não me conformei com isso, eu queria ter visto Precious se formando, indo para a faculdade, como ela diz desejar tantas vezes. Mas entendo que a incerteza do futuro de Precious depois de tudo o que vemos ela enfrentar ao longo do livro faz parte do impacto dessa leitura.
De forma geral, esse livro foi feito para chocar mesmo. Mas ele choca pela casualidade, não pelo grotesco. Durante toda a história, a realidade de Precious é tratada como algo normal. E isso é o pior, pois sabemos que, para muitas pessoas, realmente é. Existem meninas como a Precious, homens como o pai dela e mulheres como a mãe dela por aí. Existem vidas como a dela, sendo tratadas como normais. A própria Precious demora a perceber que aquilo não é normal, que não deveria estar acontecendo com ela só porque ela é gorda e negra, como ela pensa ao longo de todo o livro. O racismo internalizado aqui é muito bem retratado, assim como o racismo implícito e até explícito ao redor de Precious. Há um trecho onde ela diz que, às vezes, olha nas vitrines das lojas e espelhos e vê uma mulher grande, negra e parecida com a mãe olhando para ela, mas nunca consegue acreditar que é ela mesma no reflexo. Ela se pergunta por quê às pessoas não conseguem ver que ela é "cor de rosa por dentro", uma menina que merece flores e amor. Precious acredita que ela é branca por dentro, e que tudo o que acontece com ela é por ser negra, gorda e, na cabeça dela, feia.
Além disso, a relação dela com o pai é mostrada de forma muito crua. Os detalhes do estupro são descritos de forma que chega a embrulhar o estômago, e Precious sente culpa e vergonha por sentir prazer em determinados momentos. Essa foi uma das questões mais bem trabalhadas no livro: a mistura de sentimentos em relação ao pai, que ela não entende como abusador até então, mas odeia por fazer ela sofrer tanto, e também sente vergonha pelas reações do próprio corpo. O pai de Precious usa essas reações para justificar o que faz, dizendo que ela gosta. E Precious acredita nele. É horrível de ler.
De forma geral, é um livro para mudar a vida. Uma das melhores leituras que eu já fiz, sem sombra de dúvida.