Síndrome de Estocolmo. É o que mais passava pela minha cabeça lendo esse livro. Houveram cenas duras, porém extremamente realistas e gráficas, que me deixaram desconfortável. E houveram cenas onde me senti revoltada, porque vi uma tentativa de romantização da síndrome de Estocolmo e do abuso físico/mental que vive Mariana.
A autora pode colocar quantas cenas românticas quiser, mas eu não acredito de maneira nenhuma que uma menina na situação de Mariana vá amar uma pessoa como Dornan. Veja bem: seu namorado, Esteban, é assassinado diante de seus olhos pelo cartel do pai de Dornan. A garota é surrada e humilhada, submetida a testes e torturas pelo cartel do pai de Dornan. E então ela é emprestada pelo pai de Dornan ao filho, que a leva para um apartamento na praia, a tranca como um animal, e a usa. Dornan se torna a única companhia da garota, a única referência dela. Mariana pensa que gosta dele, pensa que ama, pensa que vale a pena porque ele a protege, mas eu, leitora, não vou acreditar que isso seja amor. Isso é medo, coação e total desespero. Achei a história extremamente bem narrada, coerente e dolorosamente realista, mas a romantização da relação de Mariana e Dornan me deixou enjoada, chega a ser até ofensivo catalogar como "amor" uma relação tóxica, abusiva e desesperada. Me deixa desconfortável ver uma certa inversão de valores, onde um personagem maldoso, que compactua com as atitudes do pai brutal, poderia ser transformado em um mocinho.
Mariana sofre de síndrome de Estocolmo e ponto. Ela acha que ama porque não tem mais opções de amar ninguém, ela está condenada aos seus olhos. A vítima destruída que não tem mais nada, apenas o predador, e por conta disso mesmo, se agarra à esta única segurança, ainda que seja uma segurança questionável.
Eu desgostei do tal romance por conta disso. A relação se desenvolve de forma pausada, é compreensível, mas a autora colocou tudo a perder quando decidiu que Mariana deveria amar Dornan. Aí pra mim perdeu a credibilidade.
O fato de eu ter desgostado do romance não quer dizer que seja um livro ruim, tanto é que dei 4 estrelas. A história é muito bem construída, tão bem que chega a ser doloroso acompanhar a trajetória da Mariana porque é realista demais, e brutal demais. A autora não poupa sofrimento para a personagem e algumas cenas me deixaram com o coração apertado de angústia.
Aliás, esse é um livro que tive que ler intercalado com outro mais levinho, porque não tive nervos para ler sem pausa, foi necessário de quando em quando dar um tempo na leitura. A narrativa da Mariana me impactava, me deixava aflita pela personagem e por ser tudo tão obscuro e cruel, achei mais que necessário ler algo intercalado com este livro.
Mariana é extremamente bem caracterizada. Ela é forte, decidida, mas aos poucos a gente vai vendo como os maus tratos vão minando sua fortaleza interna, e ela se torna frágil, e essa metamorfose da personagem é muito real, porque testemunhamos os fatos que vão moldando esse novo eu de Mariana.
O Dornan, para mim, é um vilão. O fato de ele não abusar Mariana literalmente mas esperar que ela "venha" à ele não absolve o personagem. Ele é mau-caráter, manipulador e impiedoso. Por um lado, gostei porque a autora o apresenta como um típico membro de cartel, um chefe do crime, e sua personalidade condiz com o que ele representa. Por outro lado, me incomoda quando noto que há uma tentativa de relevar seu lado perverso e apresentá-lo como um "mocinho quebrado". Não, ele não é mocinho. Esse sentimento de revolta que o Dornan gerou em mim mostra o quão bem caracterizado o personagem está. Para bem ou para mal, garanto que Dornan não deixará leitor nenhum indiferente.
A ambientação é toda obscura, os personagens secundários são bem realistas também. O pai de Dornan, Emilio, é um dos de maior destaque e aff, que cretino. A autora caracterizou Emilio super bem e ele realmente representa com perfeição uma espécie de Pablo Escobar italiano que é bem assustador. A narrativa, aliás, vem intercalada entre Emilio, Dornan e Mariana e, embora Emilio tenha poucos capítulos, são os narrados por ele que deixam o leitor mais aflito, pois a crueldade que emana do personagem, vazio de alma, é contundente e bem assustadora. Também temos o Murphy, um capanga que é policial corrupto e eu juro que não lembro de quando quis tanto que um personagem morresse porque Murphy é desses, para odiar por todo o livro.
Eu gostei da escrita da Lily St. Germain, e olha que leio pouco romance, e menos ainda romance dark, mas achei a narrativa dela bem firme, ela soube elaborar a estória, se nota toda uma pesquisa sobre as regras e a personalidade dos cartéis e seus integrantes, e tudo na trama mexe com a gente, testa a nossa resistência testemunhando toda a dor da Mariana.
Foi uma imersão nesse mundo das drogas, do tráfico de pessoas e das gangues brutais, é aquele tipo de experiência que não quero ler continuamente, mas acabou sendo uma experiência interessante, diferente de tudo o que estou habituada a ler.
Cartel me fez sentir desconforto, mal estar, em certo ponto até mesmo aversão, mas considerando que o livro é um romance dark, cumpriu com o prometido e entregou uma estória bem escrita e carregada de tensão. Um bom livro para quem gosta de romances escritos num tom mais sombrio e com personagens de índole bem questionável.