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    Uma Noite Entre os Cavalos (Memórias do Abismo #54)

    Djuna Barnes

    Hiena
    1994
    102 páginas
    3h 24m
    ISBN-10: 9723904195
    Português Brasileiro
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    - A vida – disse ela – é porca; e assustadora também. Há nela de tudo: crime, sofrimento, beleza, doença… morte. Sabias? A miúda respondeu: - Sabia. - E como é que sabes? A miúda voltou a responder: - Não sei. - Como vês – continuou Madame von Bartmann – não sabes nada! Tens de aprender tudo, e depois começar. Tens de ter uma grande compreensão, ou darás uma queda. Os cavalos tiram-te rapidamente do perigo; os comboios fazem-te voltar a ele. As pinturas dão um choque mortal ao coração… ficam penduradas por cima de um homem de quem gostaste e talvez tenha sido assassinado na cama. As flores fazem do coração um túmulo porque há dentro delas uma criança sepultada. A música incita ao terror da repetição. Os cruzamentos das estradas são os votos dos amantes; e as tabernas para os ladrões. A contemplação leva ao preconceito; e as camas são campos onde os bebés travam uma batalha perdida. Sabias tudo isto? Nenhuma resposta chegou do escuro. - O homem apodrece logo à partida - continuou Madame von Bartmann. – Apodrecido de virtude e vício. Ambos o filam pela garganta e o reduzem a nada; e Deus é a luz que o insecto mortal acende para uso próprio e com ela morrer. Isto é muito sensato, mas não deve equivocar-nos. Não quero que olhes do alto para uma puta qualquer de uma rua qualquer; reza, cai na lama, e desiste, mas sem preconceitos. Um assassino pode ter menos preconceitos do que um santo; mas às vezes mais vale ser santo. Não sintas orgulho com a tua indiferença, se caíres nas garras da indiferença; e não te enganes – disse ela – sobre o valor das tuas paixões; não passam do condimento de todo este horror. Gostaria... – Não terminou o que ia dizer mas tirou calmamente o lenço de bolso e enxugou os olhos em silêncio. - De quê? – A voz da miúda saía das trevas. Madame von Bartmann tremia. – Estás a pensar? – perguntou. - Não – respondeu a miúda. - Então pensa – disse Madame von Bartmann com uma voz forte, voltando-se para ela. – Pensa em tudo, o bom, o mau, o indiferente; em tudo, e faz tudo, tudo! Antes de morrer, tenta saber o que és. E – disse ela, inclinando a cabeça para trás e engolindo em seco, com os olhos fechados – quando fores uma boa mulher vem ter comigo.

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    Djuna Chappell Barnes  profile picture

    Djuna Chappell Barnes

    Escritora, ilustradora e dramaturga norte-americana, Djuna Chappell Barnes nasceu a 12 de junho de 1892, em Cornwall-Hudson. O seu pai, abastado e liberal, dedicou-se aos afazeres da sua quinta em Long Island depois de ter fracassado como pintor. A mãe, uma violinista inglesa, educou-a, bem como aos seus quatro irmãos, ao abrigo do sistema de ensino, sendo nessa tarefa auxiliada pela avó de Djuna, uma mulher sufragista. Influenciada pelo sonho do pai, Djuna ingressou, em 1911, no Pratt Institute de Brooklyn, tendo transitado depois para o Art Students League, por um curto período de tempo. Após o divórcio dos pais, Djuna mudou-se para Greenwich Village, e começou a trabalhar como jornalista e ilustradora independente, escrevendo para vários jornais nova-iorquinos, como o Brooklyn Eagle. Estreou-se como poetisa em 1915, com The Book Of Repulsive Women (O Livro das Mulheres Repelentes), uma coletânea de poemas e de desenhos. Entre 1919 e 1920, foram levadas a palco três peças de teatro da sua autoria, no Provincetown Playhouse de Greenwich Village, onde colaborou com Eugene O'Neill. Casou com o editor Courtenay Lemon, mas o casamento logo se esfumou. Em 1920 partiu para a cidade de Paris e viveu longe da sua pátria durante vinte anos. Aí estabeleceu contacto com personalidades como Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, T. S. Eliot e o controverso poeta Ezra Pound. Começou também a consumir bebidas alcoólicas em exagero. Em 1923 publicou a sua segunda coletânea de poemas acompanhados de desenhos, com o título A Book (Um Livro). Mantendo uma relação homossexual com a escultora Thelma Wood, publicou anonimamente, em 1928, o Ladies Almanach (O Almanaque das Damas), no qual celebrava o erotismo lésbico com ilustrações e trejeitos de humor e ironia. A obra foi interdita pela alfândega nos Estados Unidos da América. Terminando a sua relação com Thelma Wood em 1931, trocou Paris por Inglaterra, mas com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, regressou a Greenwich Village. Em 1936 apareceria a obra tida como mais considerável na sua carreira, Nightwood (O Bosque da Noite), prefaciada por T. S. Eliot, e em que descreve as vicissitudes de um triângulo amoroso complicado e nem sempre correspondido. Foi eleita membro do Instituto Nacional das Artes e Letras norte-americano em 1961. Faleceu a 18 de junho de 1982, em Greenwich Village.

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    13 Seguidores

    Djuna Chappell Barnes