Acho bom já avisar no começo dessa resenha de Objetos do Poder: O Enigma dos Dados que livros infanto-juvenis dificilmente entram na minha prateleira porque realmente não são o estilo que mais me agrada - sim, eu amo O Mágico de Oz, mas exceções da vida, certo?
Quem me ofereceu o livro foi o Marcos, depois de ver uns comentários meus na página do Talentos da Literatura da NS e como ele era bem fininho, achei que daria super certo na maratona literária de inverno. E deu, viu?
Apesar de eu ler muito mais YA, NA e adultos, não tive problemas para ler Objetos de Poder. A narrativa do Marcos é bem simples e fácil de compreender, sem enrolação, sem parágrafos desnecessários e sem se estender em assuntos que podem ser resolvidos rapidamente. Eu acho que ele soube lidar muito bem com a história que queria contar.
O mundo que ele criou também me soou bastante original. O livro é uma fantasia que se passa em um mundo onde matemática é mágica. O reino em que Isaac, o protagonista, vive se chama Enigma e muito do que aparece por lá está ligado a dedução lógica.
Na história, 500 anos atrás, a deusa que criou o mundo dividiu com suas crias um pouco do seu poder. Para proteger esse poder que receberam, as criaturas criaram Objetos de Poder e aprisionaram eles. Há muitas pessoas que não acreditam na existência desses objetos, eles são uma lenda, até que Isaac acha um deles.
Isaac, o jovem prodígio da matemática, é detentor dos Dados de Euclides, que são capazes de prever o futuro - ou, ao menos, as probabilidades dele quando fazem as perguntas certas.
A rainha de Enigma, assim que descobre sobre o garoto, manda um de seus guardas para escolta-lo até o Castelo onde Isaac poderá treinar e aprender a usar o Objeto de Poder para contribuir ao seu reino - e onde, também, estará seguro de espiões de um outro reino.
Porém, antes que Isaac possa ingressar em sua jornada, ele descobre que precisam encontrar o outro Objeto do Poder que foi entregue aos homens: o Cubo de Random. Então, com a ajuda de Gail e Bátor, eles partem em uma missão para recuperar o objeto e impedir que os inimigos o tenham.
Como mencionei acima, a narrativa do Marcos é bem simples e fácil de acompanhar, a história segue uma linha bastante coerente e tudo foi bem criado. Não deixou espaço para dúvidas sobre a magia ou sobre o mundo. Além disso, os personagens eram capazes de contarem suas histórias e explicarem o seu universo sem a necessidade de um único indivíduo dar uma aula de história - o que é bastante comum em alguns livros, infelizmente.
Gostei do Bátor e da Gail, gostei especialmente porque ela era uma garota tão inteligente e atenta as coisas a sua volta. Mas o Isaac não me convenceu. Deu pra perceber que o Marcos estava trabalhando para criar um protagonista mais real, com defeitos e qualidades, mas na maior parte do tempo ele só soava como prepotente, egoísta e mal agradecido.
Achei ele pouco consistente no desenvolvimento, Isaac passou por tanta coisa e quando você acha que ele vai começar a ser mais gentil com os acompanhantes ou que ele vai começar a entender a importância do que tem em mãos, de como pode usar esse poder e tudo o mais, ele volta para a posição mimada e pretensiosa. Achei ele volúvel demais, especialmente com a frase final, que dá a entender um crescimento pessoal do personagem.
Outra coisa que me deixou sem saber o que sentir foi a ação, que me passou uma sensação de que os perigos não eram exatamente reais. Os personagens conseguiam sair ilesos e conquistar o que queriam. Senti falta daquele vilão que vai fazer de tudo para impedir que o protagonista consiga o que quer, da virada quando o vilão parece que vai ganhar e do momento em que acontece, de fato, o crescimento do personagem e ele salva o dia.
Por mais que eu não seja acostumada a ler infanto-juvenil, conheço bastante de histórias como Harry Potter e Percy Jackson - e eu também bati um longo papo sobre desenvolvimento de fantasia infanto com o meu irmão - para entender que essa teve um tom utópico demais.
Apesar das minhas ressalvas, eu recomendo o livro sim, especialmente para crianças que estão começando a caminhar pelo mundo da literatura. O livro não é arrastado, tem ação na medida certa para empolgar e não deixa dúvidas sobre a história que pretende contar.
Sei que bati bastante em cima da tecla de "narrativa simples", mas é porque, pra mim, esse ponto é crucial na hora de escolher uma leitura - especialmente para presentear. Quando falam sobre narrativa "enfeitada" eu sempre penso duas vezes, porque bem sei que muita gente faz isso só por acha que o livro fica mais "intelectual" - uma novidade, amigo, não fica.
Então vou voltar a falar: o Marcos narra uma história de forma fluida e bem desenhada, sem buracos, sem enrolação, sem "disse e não disse" e, especialmente, sem querer ser mais do que é. Nada pretensiosa.