Depois de dar cinco estrelas para dois livros praticamente em sequência, o universo está me recompensando com livros que eram praticamente boas leituras garantidas pra mim, mas que acabaram se mostrando decepções. Primeiro The Song of Achilles e agora, Black Wolves.
Não sei se peguei o livro errado da Kate Elliott pra começar (ela tem tipo, mil livros lançados), mas Black Wolves está, na minha opinião, longe de ser um livro bom. Mas vamos para as coisas boas primeiro (na verdade, tem mais coisa boa do que ruim nesse livro, o que pode parecer estranho, mas tem umas coisas ruins que acabam com tudo, como explicarei a seguir).
Aviso: resenha enorme. Tipo, gigante. 3 mil palavras.
Primeiro, o mundo de Black Wolves não é sua Europa medieval genérica. É inspirado por culturas asiáticas (e seus personagens são, em maioria, asiáticos. Os poucos que não são asiáticos são negros. Para falar a verdade, não acho que tem uma pessoa branca nesse livro, o que por mim tá beleza) e muito bem construído. A história se passa no Hundred, um reino vizinho ao Império Sirniakan. Até alguns anos ele atrás era assolado por demônios, mas Anjihosh, um príncipe do Império Sirniakan (onde os príncipes têm que lutar entre si pelo direito de ser imperador quando o pai morre), os expulsou e acabou se tornando o rei.
Problema sendo: as crenças e tradições do Império Sirniakan são bem diferentes das comuns no Hundred. Para começar, em Sirniakan eles veneram apenas um deus e há papéis de gênero bem rígidos (mulher não pode fazer isso, homem não faz aquilo, etc, etc, etc), enquanto no Hundred mulheres e homens são tratados de forma mais ou menos iguais e eles veneram sete deses e quatro mães. Quando Anjihosh era rei isso não foi muita fonte de conflito, já que ele próprio não se importava muito com a religião e os costumes de Sirniakan e sua esposa (também de Sirniakan) não forçava nada em ninguém, mas décadas depois, Jehosh, seu neto, é rei e bem… as coisas não andam mais tão pacíficas. A primeira esposa de Jehosh, Chorannah (também de Sirniakan), trouxe as crenças do império com força total para o Hundred, o que quer dizer que você pode ser preso e condenado a trabalhar por 7 anos pela menor blasfêmia existente.
Não preciso dizer que as pessoas meio que não ficam muito felizes com esse novo sistema não.
Então, bom worldbuilding? Check.
Apesar de não ter realmente gostado gostado de nenhum personagem além do Atani (mais sobre ele depois), a maior parte foi bem feita e bem desenvolvida. Além do Atani, minha preferida de longe foi a Dannarah, e as personagens femininas em especial foram muito boas. Eu gostei bastante de como todas as mulheres com POV (três - Dannarah, uma mulher mais velha, lá com seus 50 anos, Lifka e Sarai, bem mais jovens, Sarai sendo bissexual) puderam falar abertamente sobre os amantes que já tiveram (no caso da Sarai, só a Elit mesmo, mas né) sem que a narrativa e ou os personagens as condenassem por isso. Não existem muitos livros de fantasia que fazem isso, infelizmente.
Bons personagens? Check.
Agora, uma coisa que não acontece mesmo na maioria esmagadora dos livros de fantasia: homens patéticos sendo tratados como homens patéticos.
Quero dizer, existem vários homens patéticos em livros de fantasia, mas algo que sempre me irritou é como várias e várias vezes muitos desses homens acabam sendo perdoados pela narrativa se eles possuírem certas outras qualidades ou habilidades. As coisas que esses homens fazem geralmente envolvem eles sendo babacas com mulheres, devo dizer - por exemplo, um cara traiu sua mulher e arruinou a vida dela? Ah, mas ele é um guerreiro como nenhum outro ou um líder incrível. Ele levou o povo à vitória!
Agora veja esse outro homem: ele traiu sua mulher e arruinou a vida dela, e ele… é um covarde. Tipo, ele nem fugiu da batalha nem nada do tipo, mas ele vai fazer de tudo pra evitá-la. A narrativa passou os últimos dez livros estabelecendo que ele se vira nos trinta pra tirar o dele da reta, e 80% dos personagens com POV não gostam dele justamente pelo fato de ele ser um covarde.
Qual desses dois é condenado pela narrativa? O segundo, claro. Mas os dois são homens patéticos. O primeiro é quase sempre perdoado; o que ele fez com outras pessoas (como eu já disse, em boa parte das vezes mulheres) é um detalhe feio, uma mancha nos seus feitos incríveis, mas é um detalhe nunca trazido pra luz ou nunca tratado com relevância, é algo deixado de lado e sem importância. O segundo é condenado sem dó nem piedade, e a “mancha” é trazida pra luz rapidinho, como mais uma prova do quão patético ele é (”ele é um covarde e olha só o que ele fez com a mulher dele!”).
Nos dois casos, os homens foram uns babacas, mas só um vai ser condenado pelas coisas que fez com essas pessoas. Essas pessoas, portanto, se tornam apenas plot devices, ou para tornar o cara condenável mais condenável ainda ou para tentar (numa tentativa muito falha, vale dizer) dar ao Cara Incrível um pouco mais de profundidade. A gente nunca ouve a história das pessoas afetadas por eles - a história dessas mulheres.
Em Black Wolves, Kate Elliott faz isso. Os dois exemplos de Caras Incríveis (que são patéticos) mais proeminentes da história são Anjihosh e Jehosh. Anjihosh é adorado por todos como o ~Glorious Unifier~, o rei que salvou o Hundred dos demônios e trouxe a paz, mas durante a história nós conhecemos Mai, uma antiga amante de Anjihosh, que quis se separar dele depois de um tempo. Como “punição”, Anjihosh não só tirou o filho dela (também filho dele) e o deu para sua rainha, Zayrah, criar, como colocou guardas em volta da casa de Mai para que nenhum outro homem pudesse entrar. Se algum entrasse, ele devia ser morto. Se ele não podia ter Mai, então ninguém mais poderia.
Além disso, logo no início da história o leitor descobre que Anjihosh matou um dos filhos de Zayrah para que ele não se tornasse uma ameça à Atani (o filho de Mai, e então o herdeiro do trono) por ordens de sua mãe. Uma das primeiras cenas do livro é justamente Zayrah tendo outro filho - e nessa cena ela implora que esse filho não seja um homem para que ele não tenha que matá-lo como fez com os outros dois (a criança acaba sendo uma menina).
Então, Anjihosh é um grande guerreiro e o cara que salvou o reino, yeep, ele é. Ele também é um babaca de marca maior que não sabe escutar um não e que mata bebês, não aparentando dar à mínima para a dor que isso causa a sua esposa (que ele meio que ignora). Os defeitos dele não são jogados para debaixo do tapete e não são esquecidos. E olha que Zayrah e Mai jamais têm um POV delas. O leitor descobre tudo isso através dos olhos de outro homem, Kellas.
Jehosh, seu neto, é também um herói de guerra. Desde os vinte anos que ele vem conquistando um reino vizinho e todos os consideram um guerreiro incrível. Os soldados o adoram. Mas ele é o cara que sequestrou a princesa do reino vizinho e a fez de sua segunda rainha, e o cara que passou anos tratando sua primeira rainha como uma “criatura mansa” que assistiria impassível ele ignorá-la depois de conseguir os filhos que precisava ou que ficaria quieta enquanto ele arranjava mil e uma amantes (mesmo depois da segunda rainha) (no fim das contas ele se lascou, já que ela era tudo menos mansa, e em Black Wolves ele finalmente se dá conta de que ela controla a corte quase toda).
Além disso, Jehosh usa seu status (ele é o rei, né) para se empurrar em cima de mulheres mais jovens que não têm condição alguma de negar nada a ele. Nós vemos isso com Sarai, que passa parte do livro presa na corte, e que tem que aguentar Jehosh sendo um creepy com ela enquanto isso (lembrando que Jehosh é tipo, uns 20 anos mais velho).
Jehosh é bem condenado pela narrativa e pelos personagens, até mais que Anjihosh (que fica meio a meio, até porque Dannarah, sua filha, o adora com todas as forças). Ele não deixa de ser um guerreiro incrível em momento algum, mas seus defeitos são expostos.
Então, personagens masculinos que não têm um free pass para serem babacas? Check.
O plot também é bem interessante. Black Wolves começa com Atani, Dannarah e Kellas mais jovens (Atani sendo o filho de Mai e Anjihosh e irmão de Dannarah, com 16 anos nessa parte, Dannarah com 14 ou 15 e Kellas lá com seus 30). Depois de umas 90 páginas, há um time skip de 44 anos e nós encontramos uma Dannarah bem mais velha só para descobrir que Atani, então rei, foi assassinado 22 anos atrás, que ela se tornou uma reeve - aka as pessoas que montam aves gigantes, ela sendo a líder de uma das unidades, uma marshal -, que os Black Wolves não existem mais e que é o filho de Atani, Jehosh, que é o rei do Hundred agora. Also, como eu disse lá em cima, a primeira esposa do rei manda e desmanda na corte e a cultura Sirni está meio que começando a sufocar a cultura do Hundred (coisa que não estava acontecendo 44 anos atrás).
Duas questões movem o plot de Black Wolves: como exatamente Atani morreu e por quê? E como isso está relacionado com a ameça que agora paira sobre a cabeça de seu filho?
Como eu já disse, Atani foi de longe, muito longe, meu personagem favorito. Ele está morto em tipo, 85% do livro, aparecendo apenas nessas primeiras 90 páginas e em uns três ou quatro flashbacks, mas ainda assim eu consegui gostar mais dele do que de todo o resto. Assim como seu pai e filho, ele teve uma rainha e uma segunda mulher (no caso de Anjihosh, a Mai, e de Jehosh, uma segunda rainha, a princesa do reino inimigo, Dia), e quando eu descobri isso fiquei meio até tu, brutus, mas sua rainha, Yevah, e sua amante, Eiko, eram muito próximas porque, entre outras coisas, ele tratava as duas bem (triste que isso seja algo digno de nota massss), e na verdade Eiko meio que protegia Yevah das intrigas da corte, já que Yevah era bem mais tímida e quieta. Os três viveram pacificamente por anos e anos. (♡ polyamory ♡). (Eu preferiria ter lido 800 páginas sobre a vida deles do que as 800 páginas que li de Black Wolves, mas infelizmente esse livro é adult fantasy e não ya fantasy e jamais terá fandom o suficiente para que fanfics sejam produzidas. RIP).
Plot interessante com mistério, tentativas de assassinato, intriga de corte, guerra entre rainhas (com um rei palerma no meio) e um clash de culturas? Check.
Então por que eu não gostei desse livro? Por causa das coisinhas ruins, claro.
Primeiro, algo mais de gosto pessoal. Eu odeio livros de fantasia com culturas com papéis de gênero rígidos. Tipo, odeio mesmo. Em altas fantasia de dudebro, aquelas sem mulher nenhuma ou só com mulher sexualizada/em perigo, essa sociedades geralmente estão presentes apenas para o autor ter uma desculpa pra não criar personagens femininas de importância (”mulheres são oprimidas nessa cultura, logo elas logicamente não podem ser pessoas completas ou ter vontade de própria e coisa do tipo. Vamos falar sobre os homens”). Em fantasias onde o autor estava disposto a fazer um tanto mais de esforço, essas culturas geralmente são usadas ou para tentar fazer seu worldbuilding soar cool e diferente (estou olhando para você, The Way of Kings) ou para mostrar mulheres enfrentando sexismo e sendo personagens completos e tudo mais.
Black Wolves é desse último tipo. Como eu disse lá em cima, o Império Sirniakan tem papéis de gênero bem rígidos, mas outro povo, os Ri Amarah, que vivem no Hundred, mas que são minoria (e que são culpados por tudo pelo resto do povo de lá) também são assim. Há coisas que homens não pode fazer ou lugares onde não podem ir, e lugares onde mulheres não podem ir ou coisas que elas não podem fazer. Enfim, são ambas sociedades bem onde mulher e homem são bem separados desde pequenos.
Por que não gosto de livros com culturas assim? Primeiro, porque eu odeio a ideia de papéis de gêneros bem definidos, logo não é algo que eu goste de ler sobre (I mean… tem alguém que levou a sério o papo de ter comida pra homem e comida pra mulher de The Way of Kings? Tipo, sério, é ridículo). Segundo, por causa das fantasias dudebro que mencionei ali em cima, já que não confio a maior parte dos escritores (homens) de fantasia para lidar com mulheres sendo oprimidas por qualquer cultura. Terceiro, porque absolutamente ninguém - e nisso incluo até mulheres cis escrevendo fantasia com culturas assim, tipo aqui em Black Wolves - leva pessoas trans em consideração nessa história toda. Nunquinha.
Em Black Wolves especialmente isso me incomodou porque Black Wolves é cheio de gente que raramente aparece em livros de fantasia. Como já mencionei, nenhum personagem é branco. Três dos cinco POVs são de mulheres, uma delas sendo negra, uma bissexual, e uma acima dos 50, quase nos 60. Outro POV é um cara de 70 anos. Ou seja, não são seus protagonistas comuns de fantasia. Não ia ser muito difícil fazer um personagem trans super secundário em uma dessas duas culturas.
Ou seja, não gosto de livros de fantasia com culturas assim porque até quando elas são tratadas com algum tato é sempre do ponto de vista da mulher cis - nunca de uma mulher ou homem trans, por exemplo, ou de um personagem não-binárie. E como pessoa não-binárie eu simplesmente não curto ler sobre algo assim.
Então toda santa vez que uma das duas culturas super rígidas aparecia eu revirava os olhos e, a depender do quão interessante estivesse a cena, largava o livro de lado por algumas horas.
E tipo… eu realmente não espero que seu average fantasy writer fale sobre isso. E nem estou exigindo. É simplesmente algo que eu não curto e que procuro evitar (mas resenhas raramente mencionam essas coisas, então né, here I am).
Mas sinceramente, nada disso teria me feito desgostar desse livro de verdade (eu dei 4.5 estrelas para The Way of Kings apesar de achar alguns elementos do worldbuilding um fiasco, né?). O que fez de Black Wolves um livro ruim para mim foi algo simples, que nem mesmo o plot interessante, os personagens legais e o worldbuiling no geral bom conseguiram salvar: ritmo.
E, claro, o tamanho dele.
Black Wolves tem quase 800 páginas, e eu te digo com toda certeza do mundo, ele poderia viver muito bem sem pelo menos 300 delas. O ritmo do livro é sofrível. Simplesmente horrível. Sabe as 90 páginas onde todo mundo é jovem? Podia ter sido apenas umas 40. Sabe como a sinopse diz que Dannarah vai em busca de Kellas para que os dois possam dar um jeito de salvar Jehosh? Acontece apenas após mais de 300 páginas de história. 300 páginas de história chata porque apesar de coisas acontecerem, o plot de verdade ainda não começou. O plot que me prometeram na sinopse está desaparecido, longe de mim, e eu não sei porque diabos eu deveria estar me importando com esses novos personagens (44 anos se passaram, será que dá pra ir pro ponto logo???).
Preciso lembrar a vocês que existem livros que contam suas histórias perfeitamente em 300 páginas? Pois é.
O ritmo defeituoso e a encheção de linguiça arruinaram o que poderia ter sido um livro excelente pra mim. Algumas partes eram extremamente interessantes (os últimos 30% principalmente), mas havia tanta coisa chata entre elas que eu simplesmente não me importava. Juro para vocês que só terminei esse livro pra saber o que tinha acontecido com o Atani, já que Atani > o resto do mundo.
Geralmente eu só noto diálogo se for muito ruim ou muito bom, e em Black Wolves ele foi no geral razoável, já que eu não o notei em 95% do livro. Mas em alguns momentos algumas falas eram tão horríveis que eu tinha que parar de ler, olhar pro teto e fazer uma careta mentalmente para quem editou essa história, já que levando em conta a encheção de linguiça e o ritmo horrendo, essa pessoa não anda fazendo seu trabalho muito bem.
E olha, a essa altura do campeonato vocês sabem que eu adoro um livro longo. Eu vivo por sagas épicas de 10 livros com cada um tendo mil páginas cada. Mas ritmo é essencial nesses livros. Aliás, ritmo é essencial em todo livro. Ritmo pode acabar com qualquer história, e pra mim foi isso que aconteceu com Black Wolves.
Para finalizar, eu também odiei o romance entre Sarai e Gil (o quinto e último personagem com POV). Eles se beijaram na primeira vez que se viram, estavam totalmente [heart eyes] na segunda (ocasião em que se casaram porque casamento arranjado) e depois de uma semana vivendo juntos eles estavam perdidamente apaixonados. Instalove. Bleh.
(Mas sendo sincera não chegou a incomodar muito não já que é um subplot bem pequeno, mas né, ainda é ruim).
Enfim, Black Wolves é um livro com muitas coisas boas, mas que pecou tanto em ritmo que eu não consegui gostar dele. Eu já li oito livros de uma série que eu sinceramente não gostava por causa de um personagem que eu adorava, e como disse, eu só terminei esse livro por causa de um personagem (morto, que mal aparece, porque a vida é assim e eu obviamente tenho dedo podre), mas sabe de uma? Atani não vai estar no livro 2. Então quem é que não vai estar também? Esta que vos fala. 2.5 estrelas para Black Wolves.