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    A raposa já era o caçador -

    Herta Müller

    Globo Livros
    2014
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9788525058560
    Português Brasileiro
    3.4
    138 avaliações
    Leram187Lendo17Querem496Relendo0Abandonos20Resenhas20
    Favoritos11Desejados496Avaliaram138

    Romênia, final dos anos 1980. A professora Adina e a operária Clara são amigas e moram juntas. A convivência e a cumplicidade são um refúgio em meio ao ambiente paranóico da ditadura comunista de Nicolae Ceaucescu. Quando Clara se envolve com Pavel, um agente da polícia secreta, a desconfiança se instala. Uma pele de raposa que pertence a Adina e enfeita o apartamento começa, lentamente, a perder pedaços. Com sua prosa elaborada, Herta Müller constrói um clima de insegurança e medo inspirado em sua experiência. Müller rejeita o termo autoficção, mas reconhece que seus romances são inspirados pela atmosfera de perseguição e investigações que a levaram a deixar seu país de origem. A escritora, que passou por quase 50 interrogatórios, teve suas amizades impactados pela paranóia do regime e transpõe parte dessa vivência em sua obra. O leitor é colocado diante do desconforto de Adina, que não se sente segura em sua própria casa, das questões de Clara que deseja Pavel e teme por sua amiga. Sem maniqueísmos, o agente secreto também enfrenta seus conflitos. Provocado por Clara, que o acusa de escolher suas vítimas, Pavel afirma: todos somos vítimas. O romance é formado por capítulos aparentemente independentes. Aos poucos o leitor vai compondo a história. Herta Muller não se atém apenas a narrar os acontecimentos, sua prosa é repleta de imagens e reflexões. A pele da raposa, mutilada aos poucos, adquire vários significados. O tom de ameaça, a casa invadida, um objeto pelo qual Andina tem afeto sendo, aos poucos, destruído.

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    André Ferreira picture
    André Ferreira17/04/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A Raposa Romena

    A composição de narrativas inteligentes em um quadro de frases curtas que compõe um universo contestador, literatura que representa a organização sistemática e desoladora de uma da vida diária em um regime de opressão e medo. Em “A Raposa Já Era O Caçador” romance escrito pela escritora romeno-germânica Nobel de literatura (2009) Herta Muller trás elementos singulares a uma narrativa que foge a padrões pré-estabelecidos. Tem-se aqui uma gama impar de elementos “divagatórios” dos personagens, composição crescente que aos poucos ganha forma mais real, mais organizacional e clara da história. O enredo aborda a história de Adina e Clara, duas mulheres que vivem no mesmo apartamento em Bucareste, capital da Romênia. Na Romênia dos anos 80 a situação de opressão do regime sufocante do ditador Nicolae Ceacescu chega a níveis paranoicos. Vivendo no fio da navalha, clara uma mulher da classe operaria encontra-se com Pavel, integrante do serviço secreto romeno (securitae) e se apaixona por ele. Pavel, um homem que vive o dilema de um casamento falido, além do fato de se sentir culpado e vitima, ao mesmo tempo, do regime persecutório. A penúria do povo romeno nos anos 80 é representada pela descrição de Muller da vida diária, as pessoas em estado de subnutrição e fome que contrasta com a beleza da paisagem, do Danúbio, do cinza e da decadência do estado das coisas no país. Adina professora de uma escola primaria. Clara é operária. Filhas da classe trabalhadora que sofrem da falência de um sistema e uma forma ditatória de impor medo e perseguir os cidadãos. Slogans e as ideias estão a prova, são parte de uma sociedade dividida pelo desejo de liberdade e o medo de se rebelar. O clima de espionagem e a paisagem desoladora são partes impressionantes dessa narrativa. Herta Muller constrói uma atmosfera, desenha uma paisagem com relatos fortes, simples, de sentimentos que se chocam. É interessante notar os personagens do Paul e do Liviu. Paul representa muito a ideia de artista da cidade, homem em contato com os ideais de contestação do regime, da subversão de uma ordem cruel. Já Liviu representa a vida campesina, um tanto distante dos atalhos do poder, mas que sofre a sua medida as penúrias do regime persecutório. Frases curtas e falas dentro do corpo do texto, divagações em um ritmo que começa lento, pouco esclarecedor, mas que ganha forma a partir do momento que a Revolução Romena de 1989, a narrativa ganha corpo. A tensão e o medo tomam conta à medida que o caos se instala na Romênia. Particularmente adorei a narrativa, embora o começo possa ser um tanto difícil de entender pelo fato da autora expor muito pensamentos e divagações, e também por se preocupar mais com a descrição das banalidades da vida comum em um ritmo lento. Porém, nada senti de dificuldade diante dessa narrativa lenta, aliás, pelo contrário, o ritmo lento da narrativa ajuda o leitor a se ambientar, verdadeiramente sentir o ambiente entendendo o valor “crescente” do ritmo de narração dos fatos. Questionamentos de Adina para Clara, e o conflito de Pavel com o exercício da sua função são coisas interessantíssimas de se abordar. Tudo passa na historia, assim como tudo na vida. O ditador cai e as dúvidas de uma nova sociedade permanecerão. Herta Muller nos brinda com essa história brilhante.

    26 curtidas

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    • 4 estrelas27%
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    • 2 estrelas14%
    • 1 estrelas7%
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    Herta Müller

    Herta Müller é uma escritora, poetisa e ensaísta alemã nascida na Romênia. Destaca-se pelos seus relatos acerca das duríssimas condições de vida na Romênia sob o regime político comunista de Nicolae Ceauşescu, vividas em sua juventude quando foi perseguida pelo governo ao recusar-se a colaborar com o serviço secreto. Como resultado, Hertha exilou-se na Alemanha, local onde construiu sua carreira literária (ela escreve em alemão). Foi casada com o escritor Richard Wagner. Em 2009, foi agraciada com o Nobel de Literatura por, "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos desapossados".

    28 Livros
    62 Seguidores
    Timiș, Romênia

    Herta Müller