A composição de narrativas inteligentes em um quadro de frases curtas que compõe um universo contestador, literatura que representa a organização sistemática e desoladora de uma da vida diária em um regime de opressão e medo. Em “A Raposa Já Era O Caçador” romance escrito pela escritora romeno-germânica Nobel de literatura (2009) Herta Muller trás elementos singulares a uma narrativa que foge a padrões pré-estabelecidos. Tem-se aqui uma gama impar de elementos “divagatórios” dos personagens, composição crescente que aos poucos ganha forma mais real, mais organizacional e clara da história.
O enredo aborda a história de Adina e Clara, duas mulheres que vivem no mesmo apartamento em Bucareste, capital da Romênia. Na Romênia dos anos 80 a situação de opressão do regime sufocante do ditador Nicolae Ceacescu chega a níveis paranoicos. Vivendo no fio da navalha, clara uma mulher da classe operaria encontra-se com Pavel, integrante do serviço secreto romeno (securitae) e se apaixona por ele. Pavel, um homem que vive o dilema de um casamento falido, além do fato de se sentir culpado e vitima, ao mesmo tempo, do regime persecutório. A penúria do povo romeno nos anos 80 é representada pela descrição de Muller da vida diária, as pessoas em estado de subnutrição e fome que contrasta com a beleza da paisagem, do Danúbio, do cinza e da decadência do estado das coisas no país.
Adina professora de uma escola primaria. Clara é operária. Filhas da classe trabalhadora que sofrem da falência de um sistema e uma forma ditatória de impor medo e perseguir os cidadãos. Slogans e as ideias estão a prova, são parte de uma sociedade dividida pelo desejo de liberdade e o medo de se rebelar. O clima de espionagem e a paisagem desoladora são partes impressionantes dessa narrativa. Herta Muller constrói uma atmosfera, desenha uma paisagem com relatos fortes, simples, de sentimentos que se chocam. É interessante notar os personagens do Paul e do Liviu. Paul representa muito a ideia de artista da cidade, homem em contato com os ideais de contestação do regime, da subversão de uma ordem cruel. Já Liviu representa a vida campesina, um tanto distante dos atalhos do poder, mas que sofre a sua medida as penúrias do regime persecutório.
Frases curtas e falas dentro do corpo do texto, divagações em um ritmo que começa lento, pouco esclarecedor, mas que ganha forma a partir do momento que a Revolução Romena de 1989, a narrativa ganha corpo. A tensão e o medo tomam conta à medida que o caos se instala na Romênia. Particularmente adorei a narrativa, embora o começo possa ser um tanto difícil de entender pelo fato da autora expor muito pensamentos e divagações, e também por se preocupar mais com a descrição das banalidades da vida comum em um ritmo lento. Porém, nada senti de dificuldade diante dessa narrativa lenta, aliás, pelo contrário, o ritmo lento da narrativa ajuda o leitor a se ambientar, verdadeiramente sentir o ambiente entendendo o valor “crescente” do ritmo de narração dos fatos. Questionamentos de Adina para Clara, e o conflito de Pavel com o exercício da sua função são coisas interessantíssimas de se abordar. Tudo passa na historia, assim como tudo na vida. O ditador cai e as dúvidas de uma nova sociedade permanecerão. Herta Muller nos brinda com essa história brilhante.