Os múltiplos sentidos da noite
Willian Delarte é um escritor inventivo. Compôs um livro de contos, "Cravos da noite" (Patuá, 2014), a partir de alguns signos, todos articulados a partir de poucas palavras, como é o caso da própria palavra "cravo". Em um conto, é uma flor; em outro, uma mancha de sangue. Em duas das narrativas assume a forma do prego que fixa a ferradura em cavalos; já em outra, "cravos" são os objetos que unem cristo e cruz. Mas nem só de cravos se compõe um livro. Outro signo multifacetado na obra é o cadeado, uma espécie de fixação narrativa do autor. Aqui e ali, o cadeado é símbolo de proibição, licença, comunhão. Há também a incidência dos verbos "encadear" e "cravar". Com temas gerais e modos de narrar muito diversos, "Cravos da noite" retrata o prosaico e o maravilhoso, a infância e a maturidade. "Espelho" é um dos contos que traz a marca do maravilhoso, narrando a história de um menino que perde, ou melhor, "engana" sua imagem no espelho. Sem reflexo, faz da cabeça da mãe um turbilhão. Já em "vale das flores" a narrativa é rápida, curta, mal pontuada e contém apenas letras em caixa baixa, implicando um certo imprevisto na leitura. "Virtuoso" é tão criativo e humano que comove ao narrar a história de um músico muito acima da média, mesmo para o leitor que não entende de música. "Adolfo Durão" conta a história das dúvidas sexuais secretas de um PM, de maneira interessante e bem composta. Três contos tratam de uma relação de amizade de vários ângulos. Mas é em "Beladona", conto que fecha o livro com 13 narrativas, que encontra-se o maior cuidado narrativo. Podemos ler, à página 129: "- Possa ser que, nesse exato instante, não sejamos mais que o produto da pena de um outro que acabou de escrever, por exemplo, na tela do seu computador 'ele a puxou com força e sugou com a língua o vinho retido no céu da sua boca'. Dito isso, ele a puxou com força e sugou com a língua o vinho retido no céu da sua boca[...]." Todos os contos, ou pelo menos seus ápices, ocorrem na noite, rimando com os temas com o título da obra e com a bela capa de Leonardo MAthias: o desenho sombreado de uma coruja.
