Uma mulher, um homem, oprimidos pela angústia existencial, numa sombria busca de si mesmos, carregada de fantasmas. Ruídos e, sobretudo, silêncios, infestados de passado, de medos, de mistérios. Casas perdidas numa cidade do interior, paisagem e vidas marcadas de solidões e pesadelos. E de incomunicabilidade. Tudo deixa transparecer coisa antiga, revisitada, na busca de uma cura para a condição de viver. E destacam-se os lugares da casa, com seus cômodos sempre escuros, com os objetos minuciosamente retratados com mestria de pintor e valorizados em sua condição de guardadores de lembranças, ilusões, fantasmagorias, ameaçadores. Uma atmosfera sufocante, carregada de náusea. O ambiente como projeção do inferno interior de seres conflitados diante da própria realidade do existir. Um homem e uma mulher, prisioneiros de si mesmos e dos outros, que se aproximam, chegam até o casamento, para se digladiarem, para se destruírem, um ao outro e cada um a si mesmo, numa relação marcada de silencioso sadomasoquismo. Os vivos como títeres do Destino. No fundo, a vida cheia de negativas, a dor de viver, a fatalidade do sofrimento. Mas cultivada com um certo prazer mórbido e doentio. E tudo disposto de tal forma, que o leitor é levado, ele mesmo, a juntar, no final, as peças que vão sendo, pouco a pouco, dispostas ao longo da história. A narrativa desenvolve-se como uma peça de teatro barrocamente construída. Um barroco de feição mineira. Um romance feito de medo existencial, de medo de autoconhecimento, do paradoxal conflito de estar no mundo sem aceitar a vida com seu mistério. Um romance do ser. E, em especial, do ser da mulher. Um texto valorizador das dimensões estéticas da palavra, que, na contracorrente das tendências modernistas dominantes ao tempo de sua publicação, abre-se para a narrativa de introspecção e a insere, pioneiro, na linhagem de preocupação transcendental. - Domício Proença Filho




