"Lady Susan" é um pequeno romance epistolar escrito na adolescência de Jane Austen, mas nunca submetido por ela à publicação. O público só pôde tomar conhecimento do livro a partir de 1871. Por esses dados, já é possível supor que o livro não está no mesmo nível das obras posteriores da autora, como "Orgulho & Preconceito", "Razão & Sensibilidade" e "Emma", mas "Lady Susan" possui grandes qualidades, e já prenunciava as características que fariam de Jane Austen uma escritora tão admirada.
Através de 41 cartas, tomamos conhecimento da história de Lady Susan Vernon. Sem o típico narrador sutil e irônico das obras posteriores da autora, aqui os personagens se expressam com bastante eloquência uns sobre os outros. Se por um lado a trama nada tem de memorável, a rica análise psicológica dos personagens já se faz presente neste livro. Mas é possível notar logo no início um dos principais defeitos da obra: o abandono de qualquer ambiguidade. O caráter e as motivações de Lady Susan ficam claros logo nas primeiras cartas: trata-se de uma viúva dissimulada e manipuladora, viciada no flerte. Despreza a filha e o irmão, e mantêm um caso adúltero ao mesmo tempo em que empenha-se em encontrar um casamento vantajoso. Ou seja, está mais para uma Marquesa de Merteuil do que para uma Elizabeth Bennet.
Mas, antes de julgar apenas Lady Susan, convêm não esquecer de como Jane Austen era uma crítica mordaz da sociedade em que vivia, e neste livro não é diferente. Estão presentes a hipocrisia e falsidade das relações humanas, o ócio a que a mulher era submetida, a obrigação moral e financeira de se conseguir um casamento apropriado... Lady Susan, portanto, não é apenas uma mulher, mas carrega em si toda uma época e sociedade.
p.s. Uma curiosidade: segundo a Wikipedia, o livro "Razão e Sensibilidade" também foi escrito inicialmente na forma epistolar.