Deus ainda não acabou com tudo -

    Henrique Fendrich

    Clube dos Autores
    2014
    299 páginas
    9h 58m
    ISBN-13: 9788591810109
    Português Brasileiro

    "Deus ainda não acabou com tudo" é uma coletânea de crônicas escritas no intervalo de um ano que registram, com bom humor e emoção, as impressões do autor sobre o cotidiano, os fatos e a vida que se esconde em pequenos gestos.

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    Ricardo Duarte20/10/2015Resenhou um livro
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    O movimento cego do mundo

    "Deus ainda não acabou com tudo", segundo livro de crônicas de Henrique Fendrich, reúne parte do material escrito pelo autor, diariamente, ao longo de 365 dias (de 22 de agosto de 2013 a 21 de agosto de 2014). Os temas, como seria de esperar, são variados, mas do meio dessa variedade pode-se divisar algo acerca de um modo de vida. O tema que abre o livro e que reaparece inúmeras vezes ao longo de suas páginas, à moda de um eixo estruturador, é a relação das pessoas com o dinheiro -- tratada ora de maneira leve e irônica, como em "Um pouco de pão" (sobre o que aconteceu a um homem ao pedir dinheiro para as pessoas na fila do ônibus), ora de maneira oblíqua e dissimulada, como em "Como todo suicida" (a respeito de um homem que resolveu suicidar-se num shopping center). Falando especificamente da feitura dos textos, um recurso de que o autor lança mão com certa frequência é o que se poderia chamar de "fabulação", segundo o qual o observador que protagoniza as crônicas, afetado por aquilo que observa, se deixa levar por sua imaginação. Isso acontece, por exemplo, em "A menor simpatia", sobre uma atendente de lanchonete que, embora tenha um comportamento um tanto seco e ríspido, aparentemente é invisível para os demais clientes. Após algum tempo, essa atendente desaparece, fazendo o observador levantar hipóteses sobre o que teria, afinal, acontecido com ela: "Um belo dia eu apareci lá e não encontrei Isabel -- nem nos dias seguintes e nem nunca mais. É possível que tenha sido simplesmente demitida. Pode ser que um dia o chefe tenha reclamado do seu comportamento e isso tenha gerado uma discussão tão feia que tornou insustentável sua permanência. Mas eu gosto de pensar que Isabel finalmente conseguiu fazer aquilo que gosta -- ou mais, aquilo que tem talento para fazer. Que nunca mais precisará fazer coisas aborrecidas apenas para sobreviver. Que ela tenha, enfim, conseguido proclamar sua independência." Por meio dessa fabulação, o autor consegue flagrar o drama vivido por milhões de pessoas -- o sacrifício de seu tempo a atividades sem sentido, que vão aos poucos consumindo quem se dedica a elas. Esse olhar que focaliza de maneira inesperada figuras invisíveis me fez lembrar especialmente de duas obras. Uma delas é o quadro "New York Movie" (1939),¹ de Edward Hopper, em que vemos uma lanterninha pensativa na margem do espetáculo feito para entreter o público. A outra é a novela "Na gaiola" (1898),² de Henry James, protagonizada pela atendente de uma agência de telégrafos cuja atividade diária consiste, entre outras coisas, em "pesar cartas, responder perguntas idiotas, dar trocos complicados e, mais do que tudo, contar palavras tão infinitas como as areias da praia, as palavras dos telegramas lançados, de manhã até a noite, através do vão aberto na grade superior, do outro lado da prateleira atulhada que fere seu braço com o atrito". A atendente da lanchonete, a lanterninha e a atendente da agência de telégrafos, ainda que distanciadas no tempo e no espaço, compartilham a mesma sorte no movimento cego de um mundo que o cronista, no texto que dá título ao livro, se surpreende de que ainda permaneça de pé. 1. http://36.media.tumblr.com/0d1f70d0da1a26e590e4f1cc4b1cc985/tumblr_n94jdmNx8i1r1jmv0o1_1280.png 2. http://www.gutenberg.org/files/1144/1144-h/1144-h.htm

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