Eu comecei a ler Euclides no fim do ano passado, e comecei pelas obras em ordem cronológica. "Birimbau" foi o meu debutar, e nele fiquei preso morosamente por 3 meses. Nesse período, em uma viagem eu encontrei a escrita de Itamar Vieira Junior, em "Torto Arado". Não imaginava que a trama de Bibiana e Belonísia me faria incendiar a ânsia por saber mais de onde sou, sim, poque apesar das divergências geográficas, tudo é Bahia, e a Bahia é o mundo. Agora outros 3 meses se passaram desde o encerramento do 1º livro de Euclides, e outros 8 já se consumiram em minha gana por querer mais.
Até aqui o mundo criado é conhecido e assustador, palpável e incrível. Algumas obras criam o mundo próprio que o autor quer nos evidenciar. "Os Magros", talvez sua obra prima, nos apresenta o ambiente e as inquietações, mas em "O Patrão", "Comercinho de Poço Fundo" e "Os Genros" ele entrelaça narrativas e personagens, estradas e estancias, que vão nos embebedar de graça, afeto, indignação e dor. Em "Machombongo" ele alinhava esse mundo de cores vivas e comportamentos soturnos, por vezes ignorante, por outras esclarecedoras da realidade social real em que vivemos hoje.
"Machombongo" e "Torto Arado" compartilham um fio narrativo que entrelaça a luta pela terra e a resistência dos trabalhadores rurais, na mata e no sertão. O que no século passado Euclides constrói como ficção e evidencia a opressão dos latifundiários sobre os camponeses, ressaltando a autonomia da comunidade diante das injustiças, se reforça agora com Itamar Vieira Junior, em "Torto Arado". Dá a impressão que Dr. Quirino em algum momento se bateu com a família das das irmãs Bibiana e Belonísia, com sua avó, ou com algum patrão daquelas bandas para além da Serra do Machombongo. Romances como esses possuem o tom realista e engajado, e reforça narrativas de resistência e pertencimento, faz da literatura uma ferramenta de denúncia e valorização da identidade do povo tabaréu, do povo sertanejo.