Desde que li O Coringa do Cinema, do Matheus Trunk, fiquei encantado com o esforço dele em resgatar histórias de pessoas que nem sempre tiveram o reconhecimento do público que mereciam. E aqui em Dossiê Boca essa essência continua e se amplia, já que se conta a história de outros personagens.
A leitura é bem leve e dividida em artigos, onde cada um deles se dedica a explorar a vida e obra dos mais variados personagens do cinema paulista. É notável a paixão do escritor pelo tema abordado, pela maneira que escreve, pelas perguntas que faz, pela sensibilidade que descreve seus encontros com essas figuras.
Não vou contar as histórias do livro pra não estragar as surpresas da leitura, mas entre os personagens, destaco o que mais me emocionou: Rodrigo Montana. Ele nasceu em Assis em 1940, foi o caçula de 5 irmão e perdeu seus pais muito novo. Seus irmãos então se separaram e ele acabou se tornando peão de boiadeiro. Mais tarde, quando encontrou uma de suas irmãs, esta conseguiu para ele um emprego num clube social onde ele fez de tudo, foi mecânico, carpinteiro, supervisionava piscinas, entre outras coisas, até o dia que meteu a cara a tapa e pediu para um figurão sócio do clube para lhe ajudar a trabalhar com cinema. E assim ele conseguiu um papel de figuração no faroeste O Capanga, em 1957. A partir daí não abandonou mais a sétima arte, chegou a se envolver em outras dezenas de produções, como ator, assistente, produtor e chegou inclusive a dirigir o seu próprio filme em 1982.
O livro traz também diversas imagens de making of, cartazes e fotos de acervos pessoais para enriquecer ainda mais esse mergulho na Boca do Lixo.