Podemos dizer que uma das personagens deste livro é o próprio tempo, na voz de Caetano:
E quando eu tiver saído / Para fora do teu círculo / Tempo, tempo, tempo, tempo /
Não serei nem terás sido / Tempo, tempo, tempo, tempo
Ainda assim acredito / Ser possível reunirmo-nos / Tempo, tempo, tempo, tempo /
Num outro nível de vínculo / Tempo, tempo, tempo, tempo
No Brasil, o realismo fantástico ou realismo mágico é quase uma lacuna, tem em Murilo Rubião e José J.Veiga seus maiores expoentes, hoje em dia pouco divulgados. Seríamos nós um povo de memória curta? É necessário um mea-culpa nacional, com urgência.
Enquanto lançamos nossos autores no esquecimento, nossos vizinhos hermanos provocam com o genial Jorge Luís Borges, os colombianos conclamam Gabriel Garcia Márquez, os peruanos alardeiam Mario Vargas Llosa. Isto só para ficar entre os mais badalados.
O que dizer então da literatura nacional contemporânea, em que os gêneros nem são assim tão estanques? Tudo se mistura numa fusão de cores vibrantes, estilos e ritmos dissonantes. Nesta nova vertente fantástico-realista é que vislumbro Gustavo Araujo, possuidor de palavras tão simples e belas que nos remete a recordações e memórias afetivas que nos são muito caras.
Pretérito imperfeito (Caligo, 286 páginas) já entrou para meu rol de livros inesquecíveis. Um início de leitura despretensioso, sem frases bombásticas, dessas que me deixariam congelado, foi me tomando de assalto em sua simplicidade e me encheu de algo semelhante ao deslumbramento, estou encantado.
O livro conta a história do garoto Toninho e sua amiga Cecília, do desdobramento desta amizade em algo mais consistente. Entre os dois, Pedro Vieira, pai de Toninho, personalidade controversa, torturador arrependido purgando seus pecados.
O passado de Pedro, ou melhor, Sgt.Vieira, insiste em retornar para assombrá-lo, imiscuindo-se no presente de tal maneira que o tempo é fatalmente desorientado, o que redunda na reconstrução do tempo, um novo tempo, um tempo mágico, fantástico. Passado e presente encontram-se em um lugar especial, ponto de encontro de Toninho e Cecília.
Como diria Rubem Alves: Todo mundo gostaria de se mudar para um lugar mágico. Mas são poucos os que têm coragem de tentar. A coragem e a inconsequência de Toninho consegue transportá-lo para lá, a impetuosidade e a inteligência de Cecília também. Pedro precisará encontrar o seu caminho, superar a perda de seu amor e os fantasmas de suas vítimas, sob pena de perder-se de seu filho. Mas como fugir de si mesmo e do passado que o persegue? Haverá alternativas, rotas de fuga?
Toninho é um garoto ridicularizado por seus colegas de escola. A cada leitura em sala de aula, o vexame e a vergonha que o fazem gaguejar:
... Toninho fechou o livro e se sentou. Sentiu vontade de quebrar a cara daquele garoto idiota. De dizer umas verdades à professora. Queria gritar na cara dela, perguntar-lhe se sentia prazer em fazê-lo passar por aquele sofrimento toda santa aula... ele apenas abaixou a cabeça e apoiou a testa com uma das mãos...
Volta para casa e não encontra em seu pai, Pedro, um ponto de apoio. Não há um abraço amigo, um consolo paternal. O silêncio é o inferno, uma barreira intransponível feita de concreto e amargura. A relação entre eles é calcada na falta de contato, de tato, de carinho.
Seu único prazer é sair de casa com sua bicicleta rumo a seu lugar especial, observar passarinhos. E é neste lugar que um belo dia Cecília aparece, ou seria Mariana? O nome importa menos, o que realmente importa é que deste encontro surge a amizade, o desejo de estar juntos.