Fugindo do óbvio e das redundâncias de enredo, que estão cada vez mais frequentes nos romances juvenis/fantásticos/distópicos da atualidade, Alif – O Invisível é um romance que traz uma proposta original ao misturar o fantástico com a tradição islâmica em paralelo com o frenético submundo digital.
Garanto, será uma excelente leitura.
Com uma narrativa ágil e inteligente, a jornalista G. Willow Wilson é hábil em construir uma narrativa instigante, sobre um jovem hacker que presta serviços a clientes exclusos, que buscam proteção e sigilo na rede mundial de computadores. São pornógrafos, blogueiros, comunistas, hacker ativistas, dentre outros, que ousam levantar a voz contra o controle e a opressora censura do Estado.
Vivendo na oscilação da adolescência, Alif é retirado da sua zona de conforto quando Intisar, sua namorada aristocrata lhe entrega o Alf Yeom: Os mil e um dias, uma subversão do 1001 Noites, um livro envolto em mistérios, que traz em sua origem uma seita que buscava invocar demônios para obter segredos do sobrenatural. Sabendo da existência e localização real do livro, o governo árabe intensifica a busca do que é produzido na rede e investe em um ataque cibernético, onde Alif é só um dos alvos.
Caçado pela “Mão de Deus” e contando com a ajuda do Vampiro-Rei Vikram, o jovem hacker segue sua jornada que vale sua vida e lhe proporciona entender e vivenciar de forma plena, o real e o fantástico nas vielas e becos do “Bairro Antigo”, um local onde é tênue a linha do místico e do tangível. Onde palavras tem poder e amizades ainda podem ser verdadeiras.
Confuso? A primeira vista pode até ser, afinal são vários os conceitos e temas abordados no romance, mas a tarefa de fazer disso uma historia fluída e envolvente foi concluída. Dos costumes do Islamismo a Primavera Árabe (onda de ataques e manifestações iniciadas em 2010, que até hoje ainda ocorrem no Oriente Médio buscando liberdade de expressão dentro e fora do mundo cibernético) fazem do titulo um exemplo claro, de que uma boa história, não necessariamente precisa se tornar uma trilogia.
A desenvoltura do enredo em Alif é exercício adquirido de Wilson com outro veículo de cultura. A autora norte-americana (e já convertida ao islamismo) também é roteirista de quadrinhos, já escreveu algumas HQs independentes e também para a Vertigo, selo da DC Comics. Atualmente, roteiriza a revista mensal da Capitã Marvel e foi criadora de Kamala Khan, a primeira heroína muçulmana da “Casa das Ideias”. Alif é a soma de todas essas experiências e o resultado veio em 2013, quando o seu romance de estreia como escritora levava o World Fantasy Award e figurava na lista dos mais vendidos do The New York Times.
Alif é um livro que flerta com o espiritual e o tecnológico, com o mono e o politeísmo, com castas e com djins. Um livro que nos impõe uma leitura ávida e plenamente compensadora. Um passeio por uma cultura que para nós ocidentais pode parecer distante e diferente, mas que está ali, em páginas e em bytes aguardando apenas sua curiosidade de desvendá-la.
Salaam Aleikum