Excessivo e irrelevante
Acabei abandonando o livro, mesmo percebendo que as partes que sucedem a primeira são substancialmente melhores. Trata-se de uma coletânea de textos que contém, no mais das vezes, um número excessivo de menções a movimentos sociais, artísticos ou políticos que, por conta dessa vasta utilização, perdem densidade e passam a significar nada. É comum que a reflexão do autor fique escondida detrás dessa exibição fútil de erudição que, dada a superficialidade de tratamento que o excesso impõe, não convence o leitor da profundidade que quer ostentar e tampouco contribui com o sentido do texto. Nota-se que ele conhece bem o debate as posições envolvidas, mas sua própria posição fica insignificante diante dele. Merchior escreve muito, mas uma boa lavagem diminuiria seus textos substancialmente apenas podando sua tara por referências, e o tornaria um autor muito mais relevante por forçá-lo a dizer o que realmente importa sem devanear demasiadamente. Apesar disso, as ideias do autor não são desprezíveis e o texto de José Guilherme tem bons momentos em que diz coisas realmente significativas sobre literatura e sociedade, principalmente quando não está preocupado em mostrar que é mais inteligente que a cultura acadêmica vigente ou em mostrar que domina o debate literário abordado. Há ótimos ensaios como “As contradições da vanguarda” e “Por que Camões?” e, convém dizer, o autor demonstra um domínio incomum da escrita (mas não propriamente um estilo). Ele foi nitidamente formado pelo modelo de ensaio, tendo depois enveredado pelo estilo do jornalismo por conta da maior liberdade que ele propicia. No fim das contas, apesar da montanha de dados, o que Merchior tem por dizer é... obscenamente comum e datado. São constrúidos demoradamente nexos históricos que encontramos facilmente em qualquer manual a respeito do assunto ou na crítica especializada, mas bem pouco é acrescentado a eles. Ele possui um domínio grande de certa cultura – europeia! – consagrada e toma diversas posições dentro dessa tradição sem jamais estranhá-la, sem jamais apresentar um novo referencial que o faça vê-la de fora. Ela é sempre olhada de dentro, do ponto de vista de quem a aceita e se reconhece nela facilmente. Assim, mesmo quando nega o marxismo, por exemplo, é para acatar o liberalismo, mesmo quando enfrenta a academia, é somente depois de ter aceito todo o debate tal como organizado por ela. Merchior é um europeu debatendo temas europeus para europeus cultos – e o que ele diz a respeito desses temas? Nada que um europeu já não saiba. Particularmente, eu prefiro os originais à cópia. Foi a primeira vez em minha vida literária que encontrei um autor pedante, apesar de sempre ter ouvido falar deles, e embora tenha percebido que seus textos melhoram muito quando tratam de política, não consegui suportar seu texto o suficiente para aguentar até chegar a esses textos. Eu me senti como se tivesse que duelar com o texto para forçar o autor a ser relevante, uma vez que, por ele mesmo, ele não dizia nada. Ao fim da luta eu estava mais fraco. Abandonei, vou ler algo que preste.


