No início dos da década de 1990, dois jovens invadem um terreno e formam uma favela na periferia da cidade de São Paulo. Três anos depois os moradores são expulsos. O livro narra os acontecimentos da noite da véspera dessa expulsão, sob à ótica de Adaiton Matias, o Dado, um dos fundadores da comunidade. Com uma carga bastante expressiva na abordagem psicológica, o narrador vai expondo seus conflitos pessoais e os das personagens envolvidas na trama, focando nos motivos que conduziram cada um àquele lugar.
A Noite do Despejo
Joilson Kariri Rodrigues
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Ver maisUMA NOITE QUE NUNCA SE ACABA
Por Nara Rúbia Você abre o livro “A noite do despejo” e, de repente, parece que sente uma cotovelada no estômago, segue mais umas linhas e é uma carícia que lhe aconchega a cabeça a um colo invisível. O cenário é o mundo real dos desvalidos, feito de barraco, lama, alma e pobreza. E também de sonho e poesia, visão privilegiada a que podemos alcançar tomando por empréstimo os olhos de escritor. O leitor, nessa viagem, tem a sensação de estar acompanhando a história pelas lentes de uma câmera, que parece seguir passo a passo, minuto a minuto, o narrador-personagem. A Noite do Despejo é a primeira publicação de Joilson Kariri Rodrigues. A história percorre uma noite marcante nas vidas dos miseráveis moradores de uma favela fundada por Dado, narrador dos fatos, e Júlio, quando toda a favela se vê ameaçada de despejo por uma ordem judicial. Na primeira página o narrador apresenta um prólogo, uma fala curta, mas tensa, que dá a entender que ele se dirige ao Oficial portador da Ordem de despejo, quando justifica a invasão do terreno dizendo que “não fundou uma favela, mas sim, um lar para a mulher amada e os filhos dessa”. Marta é essa mulher referida logo no começo, que não tem presença real na história, mas o leitor será conduzido a se familiarizar com ela através dos pensamentos do jovem narrador. Esse é outro aspecto encantador da narrativa, onde o protagonista vai se expondo ao leitor de uma forma intensa, mas despojada, revelando os conflitos da sua personalidade, seus medos, anseios e culpas e a as frustrações de ter sido abandonado pela mulher. Na noite que antecede a expulsão, prevista para acontecer nas primeiras horas do dia seguinte, os moradores se empenham na triste tarefa de retirar suas tralhas, que vão sendo amontoadas nos becos e vielas da comunidade. É nesse cenário, sem energia elétrica, com chuva e frio, que os fatos vão se desenrolando. Nesse ambiente as pessoas, além de terem que lidar com a sorte miserável, com suas angustias e seus medos, vão também ser submetidos à presença e o domínio da favela por marginais que perseguem um suposto policial infiltrado na comunidade. A escrita de Joilson tem um sabor agridoce, densa e ao mesmo tempo sensível. Dono de uma habilidade incrível no desenvolvimento da prosa poética, consegue encantar o leitor, mesmo que seja abordando um tema tão tenso. A literatura é Literatura quando nos tira da apatia. Quando nos bole por dentro. Quando nos enternece, encanta, ou quando nos assusta. Ler “A noite do despejo” é, a um só tempo, um susto que deslumbra.
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